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OS GAMBOZINOS DOS CONSPIRANÓICOS
08.07.06 (2:31 pm)   [edit]
A INVENCIONITE dos chamados Protocolos dos Sábios de Sião tem muitos crentes, ou antes, crédulos. Do mesmíssimo modo se acredita no Pai Natal e nos gambozinos. Já tratámos deste assunto aqui e, no meu artigo «A Maior Fraude Editorial de Sempre», inserido no blog http://abdul.tblog.com/, denunciei a crença espúria nos chamados Protocolos dos Sábios de Sião de forma sucinta, que me pareceu na altura suficiente, já que visava sobretudo enquadrar os disparates do Dan Brown. Por ecos que me chegam do Brasil e de Angola, sei agora que se goraram as minhas expectativas. Neste momento, em que o estado sionista de Israel, sob a protecção da Casa Branca e aproveitando mais uma vez a má consciência europeia, se prepara para provocar uma guerra atómica na região onde se instalou à força em 1947 – assim o Irão e a Síria mordam o anzol –, é natural que se ponha de moda outra vez discutir o que não merece discussão: a pseudo-conspiração judaica que os referidos protocolos retrataria. É uma verdade incontornável que Israel é um estado de características nazistas que pratica o apartheid, a tortura e as execuções extrajudiciais, mas isto não torna os protocolos verdadeiros nem credibiliza os dizeres dos conspiranóicos. Eu não tenho dúvidas de que o sionismo conspira permanentemente, mas não é pelo «Pim-Pam-Pum» dos protocolos que afiro as suas tramóias. Pensava eu que, depois dos trabalhos do historiador russo Mikhail Lepekhine – ver «L’Express» de 24 de Novembro de 1999 – nenhuma pessoa honesta e bem informada poderia defender a autenticidade dos protocolos, mas subestimei quanto de auto-engano sobra nas gentes. Lepekhine provou sem qualquer margem para dúvida, servindo-se dos ficheiros da antiga União Soviética, aquilo que os mais avisados sabiam há muito a partir de testemunhos que se acumulavam desde 1921, que tudo aquilo era falso e o falsificador tinha nome: Mathieu Golowinsky, de cuja biografia se retirava – e se retira agora comprovadamente – com toda a exactidão e detalhe o como, o onde, o porquê e a mando de quem. Apesar disto, muita gente com instrução superior, confrontada com as provas da falsificação, dá a volta ao texto e diz despudoradamente coisas deste género: «Bom, o que é certo é que, independentemente da autenticidade do livro, conjura existe tal como lá vem»!... Nas principais academias do mundo há hoje, como não podia deixar de ser, a profunda e total convicção sem a mais pequena margem para dúvida de que os Protocolos dos Sábios de Sião são uma fraude monumental, nem sequer bem escrita, nem sequer original. Ao dizermos isto, haverá sempre quem diga que há académicos que sustentam a veracidade dos mesmos (ou, em outra variante, que há ali muito de verdade), mas não devemos esquecer que há académicos que, contra todas as evidências, contra todas as provas negam os campos de extermínio nazistas. Depois, todos sabemos pela prática de vida que, na actual sociedade espectáculo, mais do que em qualquer outra precedente, caluniar alguém equivale a marcá-lo para sempre com um ferrete. Nenhum desmentido lhe valerá e a todo o tempo haverá quem lembre o que foi dito, passando ao lado do que foi desdito. Para além de outros vícios sociais, isto prende-se com aquilo que em Psicologia se chama Wishful thinking (desejo de acreditar). O auto-engano. A vontade de acreditar inclina-se sobretudo para o tenebroso, para o lamacento, para o que amesquinha o outro. E amesquinhar o outro é esconjurar a nossa própria mesquinhez. Os crentes nos Protocolos dos Sábios de Sião, para se darem ares de que não acreditam à toa muito simplesmente, escudam-se em citações de quem tomam como autoridade e usam a retórica do «é evidente» e «está-se mesmo a ver», quando não é evidente e muito menos visível, a não ser como miragem. É vulgar trazerem à colação que Henry Ford publicou o livro em 1920, mas não sabem ou fingem não saber que o mesmo magnata se retratou em 1926, quando soube que o texto era uma falsificação. De qualquer forma, que autoridade especial poderia ter o fabricante de automóveis em assuntos de exegese literária? Os conspiranóicos em geral acreditam nas coisas mais inacreditáveis. O chefe de fila das modernas teorias da conspiração, David Icke, para além de acreditar na autenticidade dos protocolos, defende, nos seus dez livros mais vendidos, que estamos invadidos por seres reptilianos que têm vindo a tomar o lugar dos principais dirigentes do mundo. Bush, que não consta que seja adepto do Sporting, seria um desses seres em figura de gente. Um outro figurão da mesma escola, Henry Durant, acha que os ETs que nos invadiram e procuram escravizar a raça humana são uranianos, enquanto o mitómano Jim Marrs fala de homenzinhos cinzentos. Gente curiosa esta que junta por esse mundo fora milhões de abanadores de cabeça a quem consegue fazer crer que sabem ao pormenor todos os segredos do Universo e os mais secretos planos e decisões das mais secretas sociedades. E eu não entendo como é que pode ser secreto o que toda a gente sabe, já que se encontra na NET e vem em revistas e em livros que se vendem aos milhões. Menos entendo ainda que uns sábios quaisquer deixem escapar em letra de forma os seus planos para dominar o mundo. Quero eu dizer que não existe nenhuma conspiração? Longe disso! Eu acho que sem conspiração, ou antes, sem conspirações o mundo seria uma pasmaceira. O que é um partido político senão uma central de conspirações? Não são os cartéis – e em especial as sete magníficas (ou sete irmãs) – centrais tenebrosas das mais iníquas conspirações? Como fazer a guerra e tirar proveito disso, como aumentar os réditos do petróleo sem conspirar? Todos conspiram, até a arraia-miúda, só que no seio desta a coisa tem outro nome, chama-se intriga, rasteiranço, morder na casaca, etc. e tal. Para não nos alongarmos demasiado, entremos na descrição da génese da grande fraude, façamos o historial da triste precedência das modernas teorias da conspiração, o ignóbil texto conhecido como Protocolos dos Sábios de Sião. Em 1852, recorrendo a um golpe de estado, o sobrinho de Bonaparte entroniza-se como Napoleão III. Por essa altura, Um advogado parisiense e deputado da Assembleia – Maurice Joly – começa a escrever e a distribuir anonimamente uma extensa diatribe contra o tirano, editada mais tarde (1864) com o título «O Diálogo no Inferno entre Maquiavel e Montesquieu». Como é evidente, esta obra não referia (nem, obviamente, podia referir) em momento algum qualquer conspiração judaica. Por mera coincidência, no ano seguinte (1865) nasce aquele que viria a ser o autor material dos Protocolos: Mathieu Golowinski, que cursou Direito e que, sob a protecção do ministro Conde Vorontsov-Dashkov, é encarregado dos mais sujos trabalhos policiais, nomeadamente forjar provas contra os acusados levados a tribunal, ao mesmo tempo que colabora com o Procurador do Grande Sínodo para a difusão de propaganda anti-semita. Está-se precisamente no rescaldo dos grandes progroms que varreram a Rússia entre 1881 e 1884. Em 1894 Nicolau II é coroado czar, o mesmo ano em que se assiste em França ao escândalo Dreyfus, que mereceu em 1898 o célebre J’accuse, do escritor Émile Zola. Enquanto decorria o Caso Dreyfus, o anti-semita e percursor da ideologia nazista Edouard Drumont publicava (1886) o livro incendiário «La France Juive». No mesmo ano do J’accuse, o falsário Golowinski cai em desgraça, é expulso da Ordem dos Advogados e é preso por conspiração, mas dadas as protecções de que goza, acaba exilado em França, onde vai engrossar as hostes anti-semitas engajadas nas calúnias a Dreyfus e nas perseguições aos judeus. É contratado pela polícia secreta do czar, a OKHRANA, e posto ao serviço directo do seu chefe local Rachkowski, que o encarrega de várias manobras de contra-informação, acabando por lhe exigir que arranje algo de suficientemente comprometedor para atacar os judeus na Rússia e culpá-los de todos os movimentos revolucionários que ali se desenvolvem. Dá-lhe um prazo demasiado apertado: 30 dias. Em tão pouco tempo não é possível criar nada de raiz. Que fazer? O homem não se atrapalhou e os 30 dias chegaram e sobraram. No ano anterior (1897), Benjamin Ze'ev, mais conhecido por Theodor Herzl, um jornalista austríaco de origem judaica, nascido em Budapeste fundara em Basileia a Organização Sionista Internacional. Golowinski propôs a Rachkowski forjar um manifesto do Congresso de Basileia, mas este achou que seria insuficiente e encarregou-o de adaptar o livro de Maurice Joly, já referido. Rachkowski sublinhou que recentemente o jornalista Decyon tentara usar as ideias de Joly para atacar o sistema financeiro da Rússia, pelo que o mesmo se poderia fazer agora para comprometer as organizações e os líderes judeus. Mais do que perceber o recado, Golowinski usou de toda a sua arte de falsário. Pegou no texto de Joly, condimentou-o com algumas tiradas do folhetim de Eugéne Sue (O Judeu Errante) e uma dose reforçada do romance Biarritz, do romancista alemão anti-semita Hermann Gödsche, que usou para o efeito o pseudónimo de Sir John Retcliffe. Interessante que este romance é todo construído a partir das ideias de Joly, com a novidade da introdução dos judeus na trama. Foi assim que Golowinski construiu aquilo que conhecemos hoje como os Protocolos dos Sábios de Sião. A obra de arte da falcatrua seguiu para Moscovo. Em 1905, Sergius Nilus, um concorrente de Rasputine que se dedicava ao espiritismo e à «profecia» publica em Moscovo uma obra anti-semita intitulada «O Grande No Pequeno», onde transcreve parte do texto forjado por Golowinski, relacionando-o com o Congresso Sionista que, apesar de ter sido público, ele diz que foi secreto. Entretanto vem a I Guerra Mundial e a revolução bolchevique e os conspiranóicos tudo atribuem a uma conspiração judaica. Foi da rejeição ao comunismo que surgiu o interesse do magnata Ford na publicação dos Protocolos (1920), pensando que eram verdadeiros, mas que posteriormente (1926) repudiou com toda a veemência. Umberto Eco, a propósito dos Protocolos, traduzindo com a sua mestria o ridículo das crenças conspiranóicas mesmo quando confrontadas com as evidências da fraude: «Os Protocolos podem ser falsos, mas dizem exactamente o que os judeus pensam, pelo que devem ser considerados autênticos». Ou dito de outro modo, em linguagem que não esqueça: uma mentira que dê jeito tem de ser verdade. A verdade dos preconceituosos. Sabemos bem que este assunto deveria ter sido escrito por um psiquiatra, mas quando não há cão caça-se de gato. Vendas Novas, 19 de Julho de 2006 Abdul Cadre