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Vendas Novas, 16 de Dezembro de 2005
Diga-se alto e bom som que a verdade vem sempre à tona de água, use-se megafone, se preciso for, mas não se olvide jamais que há pouca gente a querer molhar os pés. A verdade nada rende e a mentira, hoje mais do que nunca, é um bom negócio. Mentira, calúnia e escândalo são os condimentos indispensáveis ao grande espectáculo em que se tornaram as sociedades modernas e a matéria prima por excelência dos meios de comunicação de massa. No jornalismo — e não é exclusivo dos tablóides — escândalo é o que mais rende e pouco importa se é verdade ou se é mentira, o que é preciso é que seja bem excitante. No negócio da letra de forma, os livros não escapam ao fenómeno. O falsário e plagiador Dan Brown provou-o à saciedade, enchendo o bolso à conta dos crédulos desejosos de masturbação mental. Agora oiço na rádio umas ameaças dum Miguel qualquer coisa — não fixei o nome — que vai publicar não sei o quê que vai pôr de pantanas a Igreja Católica. Fiquei sem saber se é romance se é ensaio, mas presumo, pelo que lhe ouvi, que é uma excitação para aproveitar a boleia do Da Vinci. Parece que a coisa se vai chamar O Último Papa e eu quero ver se me safo de perder tempo com parvoíces.
Estas fraudes literárias não são novas. Em tempos era sobre os judeus, sobre a maçonaria, sobre os comunistas a comer criancinhas; agora chegou a vez da Igreja Católica. Vai ter êxito. Mesmo em Portugal. Aqui sobretudo, porque é uma grande oportunidade para os sectores mais pagãos da nossa sociedade — os beatos e os anticlericais — terçarem armas ferrugentas.
Apesar dos milhões de exemplares vendidos, o Código de Da Vinci não conseguiu destronar a maior fraude que eu conheço: Os Protocolos dos Sábios de Sião. Penso que neste campo nenhuma a supera. Trata-se de uma diatribe inqualificável contra os judeus, produzida, a partir de 1898, a mando e sob a direcção da polícia secreta de Nicolau II, a tenebrosa Okrahna, tendo em vista aliviar as pressões revolucionárias e arranjar um bode expiatório para os males da Rússia. Partes constituintes dos «protocolos» foram transcritas em pré-publicação, em 1905, na obra O Grande no Pequeno, de Sergius Nilus, à época um concorrente do célebre Rasputine. Cem anos depois, apesar de comprovadamente falsa, a obra continua a publicar-se e está disponível na NET numa dezena de línguas.
Sabe-se quem foi o Dan Brown desta fraude: o advogado inescrupuloso e nobre arruinado Mathieu Golovinsky. O paralelo entre estes dois não reside apenas na fraude, ambos plagiam despudoradamente outros autores. O americano plagia Gerard de Sède, Margaret Starbird e o trio de Holy Blood, Holy Grail, os mitómanos Michael Baigent, Richard Leigh, Henry Lincoln. O russo plagia uma obra panfletária de Maurice Joly contra Napoleão III, intitulada «Diálogos no Inferno entre Maquiavel e Montesquieu». Frases inteiras são ipsis verbis, a ideia está lá toda, só mudam os personagens. Note-se que, já de si, Maurice Joly teve de pedir inspiração a Eugène Sue…
Sei bem que é impossível convencer um cultor do Pai Natal de que este não existe. Eu não posso dizer aos crentes dos Discos Voadores que não existe nem nunca existiu qualquer prova ou indício da existência de tais zingarelhos, mas cada um tem a religião que mais jeito lhe dá. Escusam é de lhe chamar ciência. Assim, que continuem com os seus ficheiros secretos e, se isso lhes der felicidade, que vão até à Serra do Caramulo esperar pelos extraterrestres que os virão buscar num qualquer charuto acabaçado para os levar para o planeta prometido. Mas, por favor, não venham com as estafadas fotos de válvulas de banheira, nem com autópsias de bonecos de neopreno, nem tragam o entrapado (dito estigmatizado) Giorgio Bongiovani. Sobretudo, não se suicidem, como fizeram os outros lá na América. Eu não falo para crentes nem para contra-crentes — e ser contra-crente é a forma menos nobre de ser crente —, falo para pessoas de espírito crítico jovialmente curiosas.
Os contra-crentes mais obnóxios de que eu tenho conhecimento são os negacionistas dos campos de extermínio nazistas, que em estupidez só podem ser comparados aos patuscos que em França aprovaram a lei que os atira para a prisão, só por serem contra-crentes. Mas dos auto-intitulados democratas que andam a infectar a Europa já se espera tudo. Quando os filhos dos contestatários do Maio de 68 que reivindicavam o proibido proibir, alcandorados em legisladores, proíbem o véu islâmico não lhes entra no bestunto que tal proibição é gémea siamesa de qualquer decreto que obrigue a usar véu. Mas enfim, pode haver remédio para a ignorância, para a estupidez não há…
Importa não nos desviarmos. Falemos no prometido. Ultrapassa a minha capacidade de compreensão haver pessoas e grupos que, contra todas as provas, todas as evidências e todos os argumentos, persistem em dizer que acreditam — e eu duvido que acreditem, porque não é possível acreditarem sem merecerem um epíteto que eu me recuso a usar — na farsa dos Protocolos, um documento abjecto organizado sob supervisão da OKHRANA, como dissemos atrás.
Que fique bem claro e que me desculpem as repetições: os protocolos foram escritos por Mathieu Golovinsky, que para o efeito plagiou quase ipsis verbis o livro panfletário de Maurice Joly, como já referimos, sendo este, por sua vez, obtido por plágio dos romances O Judeu Errante e Os Mistérios do Povo, da autoria de Eugène Sue. Onde Maurice Joly ataca Napoleão III Mathieu Golovinsky ataca os judeus, mas a ideia do conluio das 12 tribos judaicas para o domínio do mundo foi buscá-la (copiando algumas páginas) ao romance Biarritz, de Hermann Gödsche, escrito sob o pseudónimo de Sir John Retcliffe.
Faz muita falta, no mercado português, um livro interessantíssimo: Why People Believe Weird Things (Porque Acreditam as Pessoas em Coisas Esquisitas), de Michael Shemer, o qual faz alguma luz sobre as razões que empurram um número assaz significativo de indivíduos para crenças que ultrapassam toda a normalidade das confissões religiosas mais comuns, fazendo-as cair no pântano dos mais incríveis disparates. Estuda-se isto em Psicologia como wishful thinking (desejo de acreditar) ou auto-engano,
A maioria destes feridos pela credulidade infantil são geralmente pouco dados à frequência das igrejas tradicionais, e se uma parte bebe nas águas inquinadas dessa lepra espiritual a que se vem dando o nome de movimento New Age, outra parte chafurda nos esgotos mentais do neo-nazismo. Paradigma actual do primeiro caso é o lixo editorialmente celebrado do Código da Vinci; exemplo acabado (e ainda em uso) do segundo caso é essa aberração chamada de Protocolos dos Sábios de Sião, que constitui Bíblia para o Ku Klux Klan e no Mein Kampf justifica o ódio e o projecto de extermínio do mal, identificado com o judeu. Para os neo-nazistas, o judeu ou é um porco capitalista ou é um perigoso comunista. Eles adoram invocar, como atestado de autenticidade dos Protocolos, que sabem que são falsos, a sua publicação em fascículos, em 1920, no jornal «Dearborn Independent», de Henry Ford, distribuídos pouco depois à escala nacional numa tiragem superior a meio milhão de exemplares, mas fingem desconhecer que o magnata dos automóveis se retractou, em 1926, no mesmo jornal, dizendo, entre outras coisas, o seguinte: «Desgosta-me profundamente que este jornal tenha divulgado “Os Protocolos dos Sábios de Sião”, que, pelo que pude saber, é uma grosseira falsificação,,, (…) É meu dever corrigir os danos causados aos judeus enquanto homens e irmãos, pelo que lhes peço perdão…»
A utilização da mentira involuntária de figuras de destaque como verdade, «esquecendo» quaisquer posteriores desmentidos, é uma prática comum a todos os falsários e a todos os caluniadores. Dan Brown e os seus quadrilheiros também gostam de invocar as lendas de Saunière e de Plantard, fomentadas (entre outros) por Gérard de Sède, esquecendo, no caso deste autor, a obra saída pouco antes da sua morte, onde ele conta como foi enganado por Pierre Plantard. O livro não está publicado em Portugal e chama-se «Rennes-le-Chateau – Le Dossier, Les Impostures, Les Phantasmes, Les Hypotheses».
Os neo-nazistas também invocam frequentemente um artigo tristemente célebre de Winston Churchil, publicado em 8 de Fevereiro de 1920, no «Ilustrated Sunday», intitulado «Sionismo versus Bolchevismo», mas esquecem o trabalho de pesquisa e desmascaramento produzido por Philip Graves, correspondente em Constantinopla do jornal londrino «The Times», de que resultou um extenso artigo publicado em 17 de Agosto de 1921, no mesmo jornal, onde todos os pormenores da falsificação são apresentados ao público.
Também podíamos invocar as condenações em tribunal, nomeadamente na Suiça e nos Estados Unidos, mas seria desnecessário aos intelectualmente curiosos e honestos; para os crédulos, de nada serviria, porque nada os demove. Podemos dizê-lo aos próprios falsários militantes, mas aos crédulos não. Os primeiros, ou nos agridem ou tomam um ar conspícuo e dizem: «é pá, tá bem, mas não digas a ninguém». Os segundos — é a natureza deles — dirão: «isso dizes tu, mas só prova que os gajos até mandam nos tribunais».
De acordo com o «L’Express», de 24 de Novembro de 1999, o historiador russo Mikhail Lepekhine provou, graças aos ficheiros da antiga União Soviética, aquilo que já se sabia e vinha sendo denunciado desde 1921, que Mathieu Golowinski foi o falsificador dos Protocolos. Daí para cá, mesmo em meios académicos, tornou-se moda dizer coisas deste género: «Bom, o que é certo é que, independentemente da autenticidade do livro, a conjura existe tal como lá vem» …
Não há mesmo pachorra!
ABDUL CADRE
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