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VOLTAR À VACA FRIA
05.08.05 (9:00 am)   [edit]

Vendas Novas, 8 de Maio de 2005


eu não sei como ainda há pachorra para deixar que nos moam o bichinho do ouvido com conversa da treta sobre educação, sucesso escolar e coisas assim.


Sobejamente, repetidamente já dissemos  neste mesmo espaço que tal discussão perde todo o sentido quando nem sequer se assentam ideias sobre o que é educação, ensino, aprendizagem, instrução, etc. Mas bitates sobre a coisa que ninguém define minimamente é um ror, porque o que nos caracteriza como povo deseducado é botarmos opinião e discurso sobre tudo e sobre todos, sem perder um segundo sequer em informarmo-nos sobre o que debitamos. É que temos grande orgulho em afirmar o que não sabemos e um ódio fininho e surdo por tudo o que envolva esforço de aprendizagem, espírito crítico e bom senso. É o oito e o oitenta, é o malandros, é o que tu queres sei eu, é o está-se mesmo a ver, que desta pecha até os cegos sofrem, desde que formatados em Portugal.


Do pouco que se sabe crítica e criteriosamente do que a alunos e escolas diga respeito directo, destaca-se a convicção de que professores é coisa que escasseia e gente que dá aulas haverá para dar e vender, embora ninguém queira comprar. O drama das colocações — Ah, coisa freudiana! — terá a ver com a falta de apetite para comprar. Mas o que me arrepia mais do que tudo é haver professores com vocação que se deixam enredar na perversidade do sistema vigente, chegando alguns a reivindicar-se do estatuto de pedagogo. Que horror!


Pedagogo era, na Grécia clássica, o escravo que não deixava as crianças em paz e sossego, nas suas brincadeira, cumprindo os ditames dos papás, que queriam filhos sabichões, enquanto estes sabiam perfeitamente que o seu futuro dependia da espada, do músculo e da artimanha. Ou seja, a escola, que por sua natureza deveria formar o escol, a elite, parece ter primado sempre pelo desfasamento com o real. Ontem e hoje. Por isso eu tanto repito aqui, por julgar compreender, aquela atitude do professor Orlando Vitorino, quando lhe pediram ideias para o ensino, qualquer coisa do género: «fechem todas as escolas, a começar pelas universidades».


Particularmente, sobre o que me interrogo, é quanto ao direito que o estado tem ou não tem de educar. É evidente que a sociedade educa os indivíduos, mas isso resulta da sua natureza e não de qualquer direito ou intenção, mas o estado educar, isto é: formatar o indivíduo, é algo de perverso. Ou não é? Para mais, fazê-lo a crianças que não fizeram mal a ninguém... E fazê-lo ao mesmo tempo que os papagaios de serviço defendem menos estado e demagogias afins. Eles sabem que não é menos estado que querem mas mais lei da selva, mas isso é já outro assunto.


Enquanto a instituição família não estiver totalmente liquidada — e o sistema está apostado nisso — educar é tarefa dos pais. Instruir será outra coisa. Mas os pais, a quem o sistema entre promessas e ameaças usurpou o tempo,  estão pouco interessados quer na instrução quer na educação. Sem dúvida que, quanto mais não seja por hábito, por atavismo, por afirmação social desejam o melhor para os seus rebentos e que estes sejam na vida o que eles não puderam ser e, nesse sentido, o que é bom é que saia um diploma, nem que seja na Farinha Amparo, mas o que os pais esperam verdadeiramente da escola — desculpe-se a generalização — é que seja armazém da prole, que a jornada é pesada, o tempo é curto e os jogos de computador não chegam para tudo nem para todos. Um armazém de guardar filhos e enteados, eis a escola.


Por vezes caem-nos na sopa os políticos que tomam por paixão o ensino, a formação e essas coisa assim. É tão mau ter uma paixão: torna-nos cegos, surdos e mudos! É por isso que o apaixonado (ou a apaixonada) olha para o fruto da sua paixão, que tem os olhos vesgos, e diz: que lindo olhar, nunca vi olho mais lindo.


Mas se querem educação, vejam o que se está a repetir nos Estados Unidos da América: professores a serem hostilizados e perseguidos por defenderem a teoria da evolução. É, no Kansas, o remake do célebre caso do professor John Scopes que, em 1925, foi acusado de violar as leis do Tennesse, por defender a evolução darwiniana, quando as seitas no poder — as mesmas que apoiam agora o Bush — defendiam o criacionismo. O criacionismo é óptimo, porque permite em nome de Deus declarar que uns já nascem maus e irrecuperáveis e outros bons e com direito ao céu neste e no outro mundo. É um suporte indispensável para a defesa da pena de morte, da negação de todas as políticas de integração social, porque quem é pobre é culpado de o ser e quem é despedido é porque não presta.


O pior dos mundos, dirigido pelos piores canalhas, e com o aplauso do povinho, do povão e, sobretudo, dos papagaios de serviço sempre louros, sempre prontos, com o seu biquinho doirado.










Abdul Cadre