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A DITADURA DEMOCRÁTICA, ou antes: a democracia ditatorial vigente na generalidade do território do IV Império e suas regiões associadas é um totalitarismo político e ideológico, uma espécie de fascismo de veludo que, sendo macio, engana e sendo chique cativa.
Embora já tenhamos falado disto, talvez se imponha lembrarmos o que queremos dizer com IV Império. Está na Mensagem, de Pessoa: Grécia, Roma, Cristandade, Europa.
A Europa, relembre-se também — e nisto o Pessoa não tem culpa nenhuma — vai de S. Francisco a Vladivostoque. Aqui, a imaginação está impedida de ascender ao poder e este tem por missão primeira, visto ser de veludo macio e atractivo, convencer-nos que só há um caminho, que embora não conduza a lado nenhum, evita que tudo seja ainda pior. É uma outra versão do antigo semear do medo, do a partir dali só há dragões.
Nunca uma sociedade foi tão conformada com uma ideologia dominante, tão rendida, tão apática quanto esta nossa, que se diz pluralista, mas se submete ao pensamento único dos onzenários e dos obscenos; nunca como hoje um totalitarismo político e ideológico foi tão cilindrante da liberdade, do humanismo e da inteligência. Um totalitarismo que jura não ter ideologia e que as ideologias morreram, no mais cínico dos exercícios de esconjuro, para que nenhuma outra se lhe possa opor. É a versão light dos «asilos psiquiátricos».
Como se vivêssemos no melhor dos mundos, os meios de ecoar esta ideologia que jura falso, malgrado a indiferença geral, tecem permanentemente as mais solenes loas à tolerância, à participação e à liberdade, como se acreditassem. Atiram ao ar e ao papel, falsos como Judas, elogios à benignidade das diferenças. Pura retórica. Raminho de flores de plástico para dar cor ao cinzento do pensamento único.
É o subconsciente que dita a generalizada indiferença, a surdez pelo cansaço da inflação das arengas; o consciente — esse — anda anestesiado, esperando quase sem esperança, como quem espera D. Sebastião, nevoeiro após nevoeiro, sem que ele venha e com pouca vontade de acreditar que venha, mas desejando todavia uma qualquer cirurgia que não doa nem dê choque pós-operatório.
Dirão os eternos defensores de todos os situacionismos — e dizem sempre bem alto, para que quem lhes paga os oiça — que há liberdade de expressão, que não há presos políticos nem por delito de opinião e que ninguém é obrigado a ser ou a fazer o que não queira...
E tudo isto — fôssemos nós imigrantes acabadinhos de chegar de Marte — pareceria verdade. Parece à maioria e são bem poucos os que se dão conta de que a coisa é uma contrafacção da verdade a servir de tampa a uma enorme mentira. Acontece, porém, que os que se apercebem da marosca, por mais que avisem, por mais que gritem não se conseguem fazer ouvir no meio do ruído geral, da chinfrineira entontecedora produzida pela tal de liberdade de expressão, que só existe por ser virtual, inócua e inútil. O sistema permite-a pelas características apontadas e porque não só não se sente ameaçado como percebeu há muito que uma panela de pressão precisa sempre de uma válvula de escape, caso contrário, à menor distracção, rebenta. Ora, todos sabemos que as válvulas, para descomprimir, fazem «pfff», mas ninguém se assusta, antes entra em salivação à espera da sopinha.
Os comprometidos esquecem-se e os áulicos querem que não percebamos que a liberdade de expressão, mesmo que não se caracterizasse como se disse atrás, em caso algum seria sinónimo de cidadania; esta é uma práxis e aquela, quanto muito, um dom. Como dom, em teoria, poderia ser uma varinha de condão para potenciar aquele exercício. Poderia! Mas também o valete de paus poderia saltar do baralho e dizer «olá, cá estou eu», mas não há notícia de que o tenha feito, nem nas mãos do David Copperfield (ou do Luís de Matos, para jogarmos em casa). O que o tal dom potencia é precisamente o contrário daquilo que se diz e seria lídimo esperar.
Eis assim — desculpem a repetição — que a liberdade de expressão se tornou neste ruído à toa que tantos incensam e que a quase todos entorpece o verbo e endurece o ouvido. É, pois, um ruído que ensurdece e desmobiliza. É uma imagem de marca destes tempos envenenados pelo síndrome do papagaio. Mas se querem chamar a esta patologia o que a propaganda invoca, se a querem ter como a saúde da democracia — entre aspas — chamem. Não tem importância, cabe no ruído geral, naturalmente tão inútil e inócuo quanto o epíteto que eu lhe dou. O que não podem, lendo-me, é fazerem de conta que nunca ninguém lhes disse; que não sabem de um certo acrescentador de ruído — e há muitos outros — que, certo ou equivocadamente (o tempo o dirá) anda a pregar (se calhar aos peixes) que o síndrome do papagaio, tal como vigora na sociedade acrítica, decadente, corrompida e obscena — esta nossa —, tem nela a alcunha de liberdade de expressão, mas nada move, nada transforma, nada faz progredir em termos de pensar, agir e humanizar.
Talvez isto seja um reflexo da cibernética...
Na cibernética tudo é possível, mas nada acontece; nada é real, tudo é virtual. Nada permanece...
Abdul Cadre
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