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O SÍNDROME DO PAPAGAIO E A LIBERDADE DE EXPRESSÃO
04.19.05 (9:19 am)   [edit]

A DITADURA DEMOCRÁTICA, ou antes: a democracia ditatorial vigente na generalidade do território do IV Império e suas regiões associadas é um totalitarismo político e ideológico, uma espécie de fascismo de veludo que, sendo macio, engana e sendo chique cativa.


Embora já tenhamos falado disto, talvez se imponha lembrarmos o que queremos dizer com IV Império. Está na Mensagem, de Pessoa: Grécia, Roma, Cristandade, Europa.


A Europa, relembre-se também — e nisto o Pessoa não tem culpa nenhuma — vai de S. Francisco a Vladivostoque. Aqui, a imaginação está impedida de ascender ao poder e este tem por missão primeira, visto ser de veludo macio e atractivo, convencer-nos que só há um caminho, que embora não conduza a lado nenhum, evita que tudo seja ainda pior. É uma outra versão do antigo semear do medo, do a partir dali só há dragões.


Nunca uma sociedade foi tão conformada com uma ideologia dominante, tão rendida, tão apática quanto esta nossa, que se diz pluralista, mas se submete ao pensamento único dos onzenários e dos obscenos; nunca como hoje um totalitarismo político e ideológico foi tão cilindrante da liberdade, do humanismo e da inteligência. Um totalitarismo que jura não ter ideologia e que as ideologias morreram, no mais cínico dos exercícios de esconjuro, para que nenhuma outra se lhe possa opor. É a versão light dos «asilos psiquiátricos».


Como se vivêssemos no melhor dos mundos, os meios de ecoar esta ideologia que jura falso, malgrado a indiferença geral, tecem permanentemente as mais solenes loas à tolerância, à participação e à liberdade, como se acreditassem. Atiram ao ar e ao papel, falsos como Judas, elogios à benignidade das diferenças. Pura retórica. Raminho de flores de plástico para dar cor ao cinzento do pensamento único.


É o subconsciente que dita a generalizada indiferença, a surdez pelo cansaço da inflação das arengas; o consciente — esse — anda anestesiado, esperando quase sem esperança, como quem espera D. Sebastião, nevoeiro após nevoeiro, sem que ele venha e com pouca vontade de acreditar que venha, mas desejando todavia uma qualquer cirurgia que não doa nem dê choque pós-operatório.


Dirão os eternos defensores de todos os situacionismos — e dizem sempre bem alto, para que quem lhes paga os oiça — que há liberdade de expressão, que não há presos políticos nem por delito de opinião e que ninguém é obrigado a ser ou a fazer o que não queira...


E tudo isto — fôssemos nós imigrantes acabadinhos de chegar de Marte — pareceria verdade. Parece à maioria e são bem poucos os que se dão conta de que a coisa é uma contrafacção da verdade a servir de tampa a uma enorme mentira. Acontece, porém, que os que se apercebem da marosca, por mais que avisem, por mais que gritem não se conseguem fazer ouvir no meio do ruído geral, da chinfrineira entontecedora produzida pela tal de liberdade de expressão, que só existe por ser virtual, inócua e inútil. O sistema permite-a pelas características apontadas e porque não só não se sente ameaçado como percebeu há muito que uma panela de pressão precisa sempre de uma válvula de escape, caso contrário, à menor distracção, rebenta. Ora, todos sabemos que as válvulas, para descomprimir, fazem «pfff», mas ninguém se assusta, antes entra em salivação à espera da sopinha.


Os comprometidos esquecem-se e os áulicos querem que não percebamos que a liberdade de expressão, mesmo que não se caracterizasse como se disse atrás, em caso algum seria sinónimo de cidadania; esta é uma práxis e aquela, quanto muito, um dom. Como dom, em teoria, poderia ser uma varinha de condão para potenciar aquele exercício. Poderia! Mas também o valete de paus poderia saltar do baralho e dizer «olá, cá estou eu», mas não há notícia de que o tenha feito, nem nas mãos do David Copperfield (ou do Luís de Matos, para jogarmos em casa). O que o tal dom potencia é precisamente o contrário daquilo que se diz e seria lídimo esperar.


Eis assim — desculpem a repetição — que a liberdade de expressão se tornou neste ruído à toa que tantos incensam e que a quase todos entorpece o verbo e endurece o ouvido. É, pois, um ruído que ensurdece e desmobiliza. É uma imagem de marca destes tempos envenenados pelo síndrome do papagaio. Mas se querem chamar a esta patologia o que a propaganda invoca, se a querem ter como a saúde da democracia — entre aspas — chamem. Não tem importância, cabe no ruído geral, naturalmente tão inútil e inócuo quanto o epíteto que eu lhe dou. O que não podem, lendo-me, é fazerem de conta que nunca ninguém lhes disse; que não sabem de um certo acrescentador de ruído — e há muitos outros — que, certo ou equivocadamente (o tempo o dirá) anda a pregar (se calhar aos peixes) que o síndrome do papagaio, tal como vigora na sociedade acrítica, decadente, corrompida e obscena — esta nossa —, tem nela a alcunha de liberdade de expressão, mas nada move, nada transforma, nada faz progredir em termos de pensar, agir e humanizar.


Talvez isto seja um reflexo da cibernética...


Na cibernética tudo é possível, mas nada acontece; nada é real, tudo é virtual. Nada permanece...








 Abdul Cadre

 
Estes Acontecimismos politiquérrimos
04.18.05 (3:57 pm)   [edit]

Vendas Novas, 18 de Abril de 2005


EU SEI, eu sei que as palavras do título são um tanto desbocadas, mas não encontrei outras mais apropriadas para aplicar ao pimbismo político nacional e ao provincianismo engravatado dos seus mais lídimos representantes.


Quem tomou alguma atenção aos acontecimentos político-partidários havidos recentemente, certamente que se terá apercebido de que a UDP teve o seu congresso de extinção, que mais não foi do que formalizar a sua dissolução de facto no Bloco de Esquerda. O que nem todos os atentos consciencializaram é que foi por uma linha negra que o último congresso da direita liberal à inglesa curta não deu na dissolução do PPD. Tão reduzida foi a margem do vencedor sobre o representante do santanismo que é melhor que ele se cuide e leve a sério a ameaça do inconformado despedido pelos votantes, regressado ao seu abrigo autárquico, mas andando por aí. É: ele diz que vai andar por aí, o que quer dizer que não percebeu nadinha do que lhe aconteceu e teima em sonhar com o impraticável e desnecessário PSL, por mais que o choradinho já não pegue e a retórica vazia da emoção utilitária e demagógica já não consiga as orelhas arrebitadas e os corações aos saltos de outros tempos e de outros calores.


No entanto, o chão minado dos delegados ao congresso deu o que deu. O povo laranja, ao que parece, continua a acreditar que é todo o povo e não a federação restrita de medos e anseios duma parte do povo a que as ilusões e as desilusões fazem parecer multidão ou pouca gente conforme soprem os ventos.


Mas o que é certo é que o povo laranja, tal como Santana, não entendeu a derrota esmagadora que o seu partido sofreu e a falta de ideologia que lhe é característica torna-o prisioneiro do acaso, do vento e dos líderes ocasionais e provisórios que prometem o que não podem dar e que juram o que se espera que jurem.


Esta já esperada vitória de Marques Mendes dá-lhe a condição de liderança vigiada; verdadeiramente não é uma vitória, mas um presente envenenado. Melhor: é uma dupla derrota, já que tem, por um lado, os contabilistas que esperam o pior — Manuel Ferreira Leite e António Borges — e, pelo outro, os que julgam que o tempo trará repetidas oportunidades caídas do céu — Santana e Menezes —, e o que é preciso é esperar que o homem escorregue. E já anda a escorregar, cedendo ao inamovível suserano da Madeira. No banco, como espectador, azedo como sempre, Pacheco Pereira bloga.


Escorregadela foi também a de Sócrates. Não havia necessidade. Que pressa é essa duma lei para a qual os portugueses, lá bem no fundo, se estão marimbando?


Limitar os mandatos é coisa que, à primeira vista, principalmente a quem sofra de treçolhos, parece muito saudável. Parece e sê-lo-ia de facto se acaso se tratasse de cargos providos por nomeação, mas acontece que os mesmo resultam de mandato popular. Ora, restringir da forma que o governo pretende e os socialistas já aplaudem é, inequivocamente, diminuir a vontade do povo. É a confirmação daquilo que eu tantas vezes tenho dito aqui: todos somos democratas desde que nos façam a vontade; todos gostamos muito do povo, desde que seja ordeiro, pague as despesas da democracia, bata palmas e vote como a gente quer.


O povo, evidentemente que precisa que lhe ensinem a votar como deve de ser e é para isso que servem os iluminados que o povo escolhe para lhe ensinarem a votar. E a pescadinha de rabo na boca também é mais ou menos assim.


É claro que a infeliz lei parece mesmo talhada para afastar o donatário da Madeira e em política, já se sabe, o que parece é. Mas o referido donatário recebeu aquele território para administrar, não do rei, mas do tal povo que é quem mais ordena quando dá jeito, isto é, quando não faz ondas nem contraria quem manda e quem manda é porque tem procuração para o mando e etc. e tal e lá vem a pescadinha com o já referido na boca.


Mas escorregadela com escorregadela se paga. Escorrega Sócrates e escorrega Mendes; o primeiro porque necessita dos votos do segundo para fazer aprovar a lei e o segundo porque dá o dito por não dito por reverência ao campeão dos impropérios e das vitórias laranja. Laranja à mexicana, está bem de ver. Façam sumo, façam sumo.  








Abdul Cadre


 


(Publicado no Jornal do Barreiro)