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DESIDERATA
03.27.05 (6:18 pm)   [edit]

 


    & nbsp;   &n bsp; Ignorar o nome do autor do poema Desiderata é um erro que se repete desde pelo menos os anos 60 do século passado, de pouco valendo as constantes reposições da verdade que muitos vão tentando. Com o advento da NET, o fenómeno tornou-se praticamente incontrolável.


 Sem dúvida que seria mais compensador para o imaginario popular e para o humano desejo de maravilhoso que a todos toca com mais ou menos intensidade que op poema tivesse sido encontrado da forma que os «spams» e «hoaxes», que chovem intensamente na nossa caixa de correio electrónico, dizem.


Ora, aparte a linguagem ser inverosímil para um texto pretensamente do século XVII, o poema, duma beleza indiscutível, é suficientemente conhecido em todo o mundo para que haja desculpa para quem desconheça o autor, um advogado de Terre Haute, Indiana (USA), chamado Max Ehrmann, que viveu entre 1872 e 1945. Na edição de 1948 de «The Poems of Max Ehrmann»., Desiderata (escrito em 1927) vem na página 165.


    & nbsp;   &n bsp; Como nasceu então a tontaria?


    & nbsp;   &n bsp; Foi assim: em finais de 1959 ou princípios de 1960, o reitor da Igreja de São Paulo, em Baltimore, Maryland, o reverendo Frederick Kates organizou uma colecção de poemas e prosas para ilustrar e enriquecer as suas prédicas no seio da congregação que então dirigia. Escreveu todo esse material com a sua própria letra em papel timbrado da igreja, que tinha o seguinte cabeçalho: «St. Pauls’s Church — Baltimore — Maryland — fundada em 1692» Mais tarde, alguém publicou aquela colectânea sem se preocupar em saber quem era o verdadeiro autor de cada um dos textos.


    & nbsp;    Com a NET todo o cuidado é pouco. As coisas propagam-se com tal velocidade que se tornam imparáveis. Também uma celebérrima carta de despedida do mundo, atribuída ao escritor Garcia Marques anda há mais de dois anos a navegar, sem que o visado, que em devido tempo a desmentiu, consiga parar a corrente.






Abdul Cadre


 


 

 
A Democracia e o Pai Natal
03.20.05 (5:22 pm)   [edit]

Há dias, num desses Fora de discussão cortês — que os há na NET — , dizia em lamento quase compungido um dos participantes, no seguimento de comentários às proezas anti-sociais do presidente da Câmara dos Deputados (Brasil) Severino Cavalcanti: Porque somos culpados de votar neles? Quais as alternativas para não nos sentirmos culpados? Somos culpados?


Penso que é bom ser-se ingénuo no seio de ingénuos, mas ser-se inocente não me parece ser estimulante, embora possa tornar-se em um modo de vida.


Assim, avancei uma tese que me parece muito sólida, já que entendo que parte de uma constatação incontornável:


PRIMO. Todo o mau carácter que seja eleito é sempre e em todas as circunstâncias completamente inocente. Ele não obrigou ninguém a votar nele.


 SECUNDO:  Todo aquele que vota é sempre e em todas e quaisquer condições culpado em absoluto; mesmo que no mau sítio onde vote seja obrigatório fazê-lo, ninguém o obriga a pôr a cruz que deve ser dada aos defuntos no quadradinho; pode escrever umas asneiras, que está provado serem um bom lenitivo psicológico.


 


Comentando o que por aí se vê, eu diria que, a haver justiça neste mundo, sempre que um político, por exemplo, metesse a mão na massa todos os votantes deviam ser presos. O problema é que o voto é secreto. Tenho esperança que com o voto electrónico se possam identificar os votantes. Se não for possível oficialmente, os hackers tratarão do assunto.


Sublinhando, nunca é demais dizer-se que povinho adora ladrão e demagogo. Um político que queira assegurar a sua eleição, baste que espalhe cartazes com a sua foto e os dizeres. ESTE ROUBA, MAS FAZ.  


Na democracia de fancaria — que é o sistema que os possidentes inventaram para os crentes — o que me espanta é como é que há tanta gente honesta em cargos públicos e em cargos políticos. Devia ser proibido. Melhor: esses, dado que são parvos e não correspondem ao desejo dos votantes de ser roubados e enganados para se poderem lamentar e dizer «tadinho de mim», esses (repito) deviam ser despedidos, ou mesmo expulsos do país onde não são romanos..


     & nbsp;   &n bsp; 


Fora de contexto: o próximo passo na destruição da esperança de algum dia se poder vir a ter um regime democrático chama-se voto electrónico. Tudo isto tem uma lógica: afastar o cidadão da cidade e aprisioná-lo em casa. É preciso que os cidadãos não falem uns com os outros e se limitem a ouvir a voz do Big Brother que lhe chega pela TV


Tudo isto estava previsto há muitos anos. Só não percebe quem não esteve para ler com atenção o Aldous Huxley. Mas esses, afinal, são os felizes — felizes pela ingenuidade—, que têm assim liberdade para acreditar no Pai Natal, esse inexistente senhor, cada vez mais parecido com a garrafa de Cocacola que o desenhou.


 

 
A PERVERSÃO DA EXCITAÇÃO
03.08.05 (9:17 pm)   [edit]

NUM MUNDO sem espírito, como é o nosso no actual ciclo pós-moderno, decadente e mercantilista, toda a produção literária com algum impacto que se reivindique de busca e de critérios espiritualistas só pode ser ou uma paródia ou a própria negação daquilo que afirme, mesmo que jure. Diz o povo que quem mais jura mais mente, mas os mentores deste mundo que apodrece nunca mentem, eles são a própria mentira e a mentira é sempre verdadeira. Aliás, se jurassem, nada teriam de sagrado sobre que pôr as garras que lhes substituíram as mãos; para o fazerem, teriam de usar as tetas da Bo Derek, o livro de cheques, o Jornal O Crime ou coisa similar.


Neste tempo onde tudo se vende, tudo se vilipendia, tudo se prostitui, a bitola moral de todo o êxito está nas cotações da bolsa, nos top mais, no share; o que vende é bom e o que não vende é mau ou não existe, mesmo que exista. E esta regra é tão válida para arranjar noiva como para bater palmas a um disco ou a um livro.


Há um bom par de anos atrás, apareceu por aí um esterco em livro de características zandingueiro-cibernética s, escrito por dois militantes do sionismo internacional, que tinha por título Código da Bíblia. Era uma coisa intencionalmente corruptora e, em razão disso, nem sequer se lhe podia chamar tonta, cheirava mal e pronto. Usava uma estratégia de calar naturais desconhecimentos, atirando à cara do leitor que estava tudo sob controlo do computador, essa sacrossanta ferramenta da teologia de mercado que, no campo das credulidades de base, veio substituir São Miguel Arcanjo, São Jorge, o dragão e sei lá que mais...


Foi uma delicia ver como inocentes incapazes de distinguir, no alfabeto hebraico, um aleph de um schin se deliciaram com páginas e páginas de caracteres que desconheciam, seguindo tolamente as coordenadas fantasmagóricas que os autores juravam (não sei se sobre a Bíblia, ou se tiveram a colaboração da Bo Derek) cruzarem-se sobre todos os acontecimentos, mesmo os mais banais. Da queda de geada à morte daquela leviana que os jornais em campanha desinformativa chamaram princesa do povo, estava tudo previsto. Se levássemos a crença espúria às últimas consequências, afirmar-se-ia que no tal código se previa  — então não havia de estar lá, com o estrondo que fez? — a queda do consulado mais triste da nossa História e o regresso do derrotado à Câmara de Lisboa. Estava previsto com todos os números e com todos os votantes. Uma delícia.


Para as pessoas mais atentas, aquilo era uma verdadeira ofensa à inteligência; os crédulos — esses — lamentavam-se apenas por não saberem de programação informática e de hebreu para poderem descodificar na Bíblia as datas certas em que iam de férias, não se arrepiando sequer que aquela estupidez impressa pusesse em causa dois mil e quinhentos anos de Filosofia.


O que é curioso nestas coisas é vermos gentinha que habitualmente não lê atirar-se a lixo deste como se ler tivesse, naquele fogacho inusitado e inconsequente, uma importância de descoberta da pólvora. Há até dos que, bastante entrados nas letras, puxam de galões e canudos e desculpam o lixo a que chamam obra, dizendo que incentiva a leitura, como se, atirando os nossos filhos ao caneiro de Alcântara, pudéssemos dizer que os estávamos a incentivar para a natação.


Agora caiu aí uma das maiores intrujices alguma vez publicada: O Código Da Vinci. Os permissivos saltam a terreiro e gritam: então, é um romance, é ficção, enquanto os crédulos de sempre dão testemunho da sua inocência, murmurando entre o orgulhoso e o não sei quê: mas tem ali muito de verdade. Entretanto, o intrujão, que escreveu a abrir que tudo o que diz é verdade, isto é, a ficção passou a ser a realidade, pergunta para o contabilista: quantos milhões? quantos milhões?


Pois é, até podíamos desculpar o intrujão à pala de se tratar de imaginação romanesca, mas se o homem jura — e já vimos que quem mais jura mais mente — que tudo se baseia em factos absolutamente verídicos, não podemos. Aquilo a que ele chama factos são comprovadíssimas mentiras e falsificações. Já lá vai o tempo em que num romance se dizia que quaisquer parecenças com a vida real eram pura coincidência; hoje, quando o que melhor vende é a mentira, hoje, em que podemos confiar a 100% na mentira, porque ela é sempre o que é, vale tudo, até tirar olhos, a mentira é um grande capital.


Há também quem venha com pezinhos de lã apontar que a coisa é uma espécie de Harry Potter para adultos, talvez levando em conta (ou inspirando-se) que a saga do puto feiticeiro é escrita por uma professora de inglês e que professor de inglês é também o famigerado Dan Brown que, num serviço ao sionismo internacional, resolveu roubar o sagrado e a divindade a Jesus para entregar ambas as coisas a Maria Madalena. Para o intrujão, a igreja católica — e por que não a protestante e a ortodoxa? — sabia que Jesus mais a dita cuja se tinham casado sem convidar ninguém para a boda e que tinham tido muitos meninos, os quais deram origem à dinastia francesa dos Merovíngios. Devia de haver limites para a estupidez, mas parece que não há. Pois bem, a Igreja sabia e perseguiu todos os outros que também sabiam, para que a gente não soubesse. Valeu-lhe de pouco, porque quis o destino que nascesse o grande profeta do dólar para pôr tudo em pratos limpos.


Abdul Cadre


FRC 


(Publicado no Jornal do Barreiro)

 
O CÓDIGO DA TRETA
03.02.05 (6:37 pm)   [edit]

DAN BROWN, professor de inglês, bacharel em História da Arte é um oportunista bem sucedido. Vinte milhões de consumidores do seu mirabolante código, sedentos de maravilhoso e ávidos de serem enganados, garantiram-lhe uma velhice aconchegada, salvo qualquer descarrilamento que a vida lhe venha a trazer. Ele não tem qualquer formação na área que afirma ter investigado, mas que comprovadamente não investigou, tudo carreando para o seu embuste das obras que leu — algumas apenas à vol de oiseau — e que aqueles que não andam distraídos nas leituras bem conhecem. Não há no seu livro a mais pequena originalidade nem quaisquer vestígios de novidade se vislumbram ali. É por isto que não podemos dizer o que Marcelo Caetano disse um dia a um seu examinando: «há na sua tese coisas muito boas e coisas muito originais; pena que as boas não sejam originais e as originais não sejam boas». É que todas as propostas que colocou no seu abortivo trabalho já eram más no original, algumas muito antigas, remontando inclusive a lendas medievais, invariavelmente, nos meios onde o espírito crítico não é simples figura de retórica e o critério de busca das verdades históricas e documentais não esmorece, apontadas como falsas . Mas Dan Brown não é apenas um oportunista bem sucedido entre outros que o sejam menos, é também um mentiroso contumaz e militante. E tem todas as razões para o ser porque é a sua forma de ganhar a vidinha. Numa entrevista a uma jornalista americana, o marau dizia que estava farto daquilo que vinha nos livros — tudo falso, já se vê, segundo ele — e isso levou-o a cair sobre nós como o grande profeta desta era do vazio e do dólar. Assim, a verdade dele — que é descarada mentira e evidente má-fé — foi vertida na sua obra pelo método, não diria da tesoura e cola, visto que fez imensos retoques para pior, mas pelo da falta de escrúpulos, que não necessita tesoura, basta o desrespeito pelo que escreveram outros e a nenhuma consideração pelos leitores. Sem dúvida que cita alguns autores e as suas obras, mas em simultâneo faz interpretações enviesadas das mesmas, quando não mesmo inversas. Não cabe aqui, por inadequação e por falta de espaço — só num ensaio de várias páginas — analisar os dislates e as aleivosias do figurão, pelo que basta que se diga que as suas afirmações (que afinal são de outros que escreveram antes, nomeadamente Gérard de Séde) sobre os merovíngios a descenderem de Jesus, sobre o Graal e Maria Madalena não são apenas delirantes, são de tal maneira estúpidas e fora do contexto mais do que sabido das respectivas lendas (e não Teologia ou História) que bem poderiam ter sido produzidas por algum internado no Júlio de Matos. Depois, tirar a Jesus o sagrado e o divino para dar ambas as coisas a Maria Madalena, será para quê? Baseia-se em quê? Nos seus delírios pós new age ou numa sexualidade mal resolvida? Como se acabasse de descobrir a pólvora, diz várias vezes que Maria Madalena não era uma prostituta e que foi a malvadona da igreja, na sua senha de subjugar a mulher, que tudo inventou acintosamente. O homem não se actualizou, pois há muitos anos que a igreja católica, ultrapassando os textos evangélicos, que nisto são confusos, defende que Jesus apenas livrou Madalena de sete demónios e que a prostituta defendida por Jesus é outra mulher que não ela. O homenzinho diz mais: que nos Evangelhos Apócrifos — lá vêm os apócrifos que têm muito que contar — que Maria Madalena é tratada como apóstola dos apóstolos, o que é mentira, totalmente mentira; essa frase, que é da autoria do actual Papa, não se encontra escrita em nenhum evangelho. Diz ainda que um dos apócrifos relata que Jesus beijava na boca e amiúde Madalena, coisa que não está escrita em lado nenhum. É imaginação do homenzinho ou analfabetismo. O documento que refere está todo esburacado pelos malefícios do tempo e tal passagem é apenas suposta: um dos editores da coisa pôs entre parêntesis rectos aquilo que deduziu... Por falar em documentos: é evidente que Dan Brown não consultou os documentos que afirma ter consultado, referentes à associação inventada pelo ex-nazista (e depois degaulista), o mal-afamado Pierre Plantard, um louco megalómano que se afirmava descendente dos merovíngios, e assim de Jesus e Madalena. Estou a lembrar-me de um tonto similar, um brasileiro que foi ao Herman José e se dizia reencarnação de Jesus. O Priorado do Sião foi uma trapaça — nem sequer bem urdida — do Sr. Pierre Plantard e de um grupo restrito de mitómanos. Os documentos que se encontram depositados na Biblioteca Nacional, em Paris, estão classificados como falsificações. Não são seculares, foram forjados entre os anos de 1964 e 1969, pasme-se. É por eles que o trapaceiro do Dan Brown invoca Da Vinci para mestre da inexistente sociedade secreta... Por que razão este livro teve tanto êxito comercial? Bom, isso mereceria um estudo profundo e exaustivo e, à falta dele, perguntaríamos no mesmo jeito: por que é que os drogados se drogam? Posto isto, dirá muita gente: ó homem, não vê que aquilo é apenas um romance, um thriller? Pois é — ou não é — mas, para além da cobertura nada inocente que lhe foi conferida pelos media e dos vinte milhões que subsidiaram o autor — coisa que merece atenção e cuidado — o escriba garante no prefácio que tudo o que ali meteu a martelo é rigorosamente verdadeiro e denuncia tudo o que diz a Igreja Católica, que em tudo mente. Quer dizer, antigamente, nos romances preveniam-se os leitores: todas as semelhanças são pura coincidência; agora, toda a fantasia, toda a mistificação, toda a mentira se afirma como verdade pura. É o fruto deste tempo que apodrece. Termino com um desafio aos meus leitores que tenham tropeçado na fancaria a que nos vimos referindo: leiam os Evangelhos Apócrifos e releiam os Canónicos. Não se iludam com os textos de excitação que louvam uns em detrimento dos outros. E, por favor, não comprem livros, nem discos, nem o que quer que seja só porque as estratégias de marketing lhes induzem crer que é a única forma de serem felizes e de não serem menos do que os outros. Tais estratégias são verdadeiramente o grande segredo do Código da Treta.


Abdul Cadre


FRC


Vendas Novas - PORTUGAL


(Publicado no jornal ROSTOS)