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| OS GAMBOZINOS DOS CONSPIRANÓICOS |
| 08.07.06 (2:31 pm) [edit] |
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A INVENCIONITE dos chamados Protocolos dos Sábios de Sião tem muitos crentes, ou antes, crédulos. Do mesmíssimo modo se acredita no Pai Natal e nos gambozinos.
Já tratámos deste assunto aqui e, no meu artigo «A Maior Fraude Editorial de Sempre», inserido no blog http://abdul.tblog.com/, denunciei a crença espúria nos chamados Protocolos dos Sábios de Sião de forma sucinta, que me pareceu na altura suficiente, já que visava sobretudo enquadrar os disparates do Dan Brown. Por ecos que me chegam do Brasil e de Angola, sei agora que se goraram as minhas expectativas.
Neste momento, em que o estado sionista de Israel, sob a protecção da Casa Branca e aproveitando mais uma vez a má consciência europeia, se prepara para provocar uma guerra atómica na região onde se instalou à força em 1947 – assim o Irão e a Síria mordam o anzol –, é natural que se ponha de moda outra vez discutir o que não merece discussão: a pseudo-conspiração judaica que os referidos protocolos retrataria.
É uma verdade incontornável que Israel é um estado de características nazistas que pratica o apartheid, a tortura e as execuções extrajudiciais, mas isto não torna os protocolos verdadeiros nem credibiliza os dizeres dos conspiranóicos. Eu não tenho dúvidas de que o sionismo conspira permanentemente, mas não é pelo «Pim-Pam-Pum» dos protocolos que afiro as suas tramóias.
Pensava eu que, depois dos trabalhos do historiador russo Mikhail Lepekhine – ver «L’Express» de 24 de Novembro de 1999 – nenhuma pessoa honesta e bem informada poderia defender a autenticidade dos protocolos, mas subestimei quanto de auto-engano sobra nas gentes. Lepekhine provou sem qualquer margem para dúvida, servindo-se dos ficheiros da antiga União Soviética, aquilo que os mais avisados sabiam há muito a partir de testemunhos que se acumulavam desde 1921, que tudo aquilo era falso e o falsificador tinha nome: Mathieu Golowinsky, de cuja biografia se retirava – e se retira agora comprovadamente – com toda a exactidão e detalhe o como, o onde, o porquê e a mando de quem. Apesar disto, muita gente com instrução superior, confrontada com as provas da falsificação, dá a volta ao texto e diz despudoradamente coisas deste género: «Bom, o que é certo é que, independentemente da autenticidade do livro, conjura existe tal como lá vem»!...
Nas principais academias do mundo há hoje, como não podia deixar de ser, a profunda e total convicção sem a mais pequena margem para dúvida de que os Protocolos dos Sábios de Sião são uma fraude monumental, nem sequer bem escrita, nem sequer original. Ao dizermos isto, haverá sempre quem diga que há académicos que sustentam a veracidade dos mesmos (ou, em outra variante, que há ali muito de verdade), mas não devemos esquecer que há académicos que, contra todas as evidências, contra todas as provas negam os campos de extermínio nazistas.
Depois, todos sabemos pela prática de vida que, na actual sociedade espectáculo, mais do que em qualquer outra precedente, caluniar alguém equivale a marcá-lo para sempre com um ferrete. Nenhum desmentido lhe valerá e a todo o tempo haverá quem lembre o que foi dito, passando ao lado do que foi desdito. Para além de outros vícios sociais, isto prende-se com aquilo que em Psicologia se chama Wishful thinking (desejo de acreditar). O auto-engano. A vontade de acreditar inclina-se sobretudo para o tenebroso, para o lamacento, para o que amesquinha o outro. E amesquinhar o outro é esconjurar a nossa própria mesquinhez.
Os crentes nos Protocolos dos Sábios de Sião, para se darem ares de que não acreditam à toa muito simplesmente, escudam-se em citações de quem tomam como autoridade e usam a retórica do «é evidente» e «está-se mesmo a ver», quando não é evidente e muito menos visível, a não ser como miragem. É vulgar trazerem à colação que Henry Ford publicou o livro em 1920, mas não sabem ou fingem não saber que o mesmo magnata se retratou em 1926, quando soube que o texto era uma falsificação. De qualquer forma, que autoridade especial poderia ter o fabricante de automóveis em assuntos de exegese literária?
Os conspiranóicos em geral acreditam nas coisas mais inacreditáveis. O chefe de fila das modernas teorias da conspiração, David Icke, para além de acreditar na autenticidade dos protocolos, defende, nos seus dez livros mais vendidos, que estamos invadidos por seres reptilianos que têm vindo a tomar o lugar dos principais dirigentes do mundo. Bush, que não consta que seja adepto do Sporting, seria um desses seres em figura de gente. Um outro figurão da mesma escola, Henry Durant, acha que os ETs que nos invadiram e procuram escravizar a raça humana são uranianos, enquanto o mitómano Jim Marrs fala de homenzinhos cinzentos.
Gente curiosa esta que junta por esse mundo fora milhões de abanadores de cabeça a quem consegue fazer crer que sabem ao pormenor todos os segredos do Universo e os mais secretos planos e decisões das mais secretas sociedades. E eu não entendo como é que pode ser secreto o que toda a gente sabe, já que se encontra na NET e vem em revistas e em livros que se vendem aos milhões. Menos entendo ainda que uns sábios quaisquer deixem escapar em letra de forma os seus planos para dominar o mundo.
Quero eu dizer que não existe nenhuma conspiração?
Longe disso! Eu acho que sem conspiração, ou antes, sem conspirações o mundo seria uma pasmaceira. O que é um partido político senão uma central de conspirações? Não são os cartéis – e em especial as sete magníficas (ou sete irmãs) – centrais tenebrosas das mais iníquas conspirações?
Como fazer a guerra e tirar proveito disso, como aumentar os réditos do petróleo sem conspirar?
Todos conspiram, até a arraia-miúda, só que no seio desta a coisa tem outro nome, chama-se intriga, rasteiranço, morder na casaca, etc. e tal.
Para não nos alongarmos demasiado, entremos na descrição da génese da grande fraude, façamos o historial da triste precedência das modernas teorias da conspiração, o ignóbil texto conhecido como Protocolos dos Sábios de Sião.
Em 1852, recorrendo a um golpe de estado, o sobrinho de Bonaparte entroniza-se como Napoleão III. Por essa altura, Um advogado parisiense e deputado da Assembleia – Maurice Joly – começa a escrever e a distribuir anonimamente uma extensa diatribe contra o tirano, editada mais tarde (1864) com o título «O Diálogo no Inferno entre Maquiavel e Montesquieu». Como é evidente, esta obra não referia (nem, obviamente, podia referir) em momento algum qualquer conspiração judaica.
Por mera coincidência, no ano seguinte (1865) nasce aquele que viria a ser o autor material dos Protocolos: Mathieu Golowinski, que cursou Direito e que, sob a protecção do ministro Conde Vorontsov-Dashkov, é encarregado dos mais sujos trabalhos policiais, nomeadamente forjar provas contra os acusados levados a tribunal, ao mesmo tempo que colabora com o Procurador do Grande Sínodo para a difusão de propaganda anti-semita. Está-se precisamente no rescaldo dos grandes progroms que varreram a Rússia entre 1881 e 1884.
Em 1894 Nicolau II é coroado czar, o mesmo ano em que se assiste em França ao escândalo Dreyfus, que mereceu em 1898 o célebre J’accuse, do escritor Émile Zola. Enquanto decorria o Caso Dreyfus, o anti-semita e percursor da ideologia nazista Edouard Drumont publicava (1886) o livro incendiário «La France Juive».
No mesmo ano do J’accuse, o falsário Golowinski cai em desgraça, é expulso da Ordem dos Advogados e é preso por conspiração, mas dadas as protecções de que goza, acaba exilado em França, onde vai engrossar as hostes anti-semitas engajadas nas calúnias a Dreyfus e nas perseguições aos judeus. É contratado pela polícia secreta do czar, a OKHRANA, e posto ao serviço directo do seu chefe local Rachkowski, que o encarrega de várias manobras de contra-informação, acabando por lhe exigir que arranje algo de suficientemente comprometedor para atacar os judeus na Rússia e culpá-los de todos os movimentos revolucionários que ali se desenvolvem. Dá-lhe um prazo demasiado apertado: 30 dias. Em tão pouco tempo não é possível criar nada de raiz.
Que fazer?
O homem não se atrapalhou e os 30 dias chegaram e sobraram.
No ano anterior (1897), Benjamin Ze'ev, mais conhecido por Theodor Herzl, um jornalista austríaco de origem judaica, nascido em Budapeste fundara em Basileia a Organização Sionista Internacional. Golowinski propôs a Rachkowski forjar um manifesto do Congresso de Basileia, mas este achou que seria insuficiente e encarregou-o de adaptar o livro de Maurice Joly, já referido. Rachkowski sublinhou que recentemente o jornalista Decyon tentara usar as ideias de Joly para atacar o sistema financeiro da Rússia, pelo que o mesmo se poderia fazer agora para comprometer as organizações e os líderes judeus. Mais do que perceber o recado, Golowinski usou de toda a sua arte de falsário. Pegou no texto de Joly, condimentou-o com algumas tiradas do folhetim de Eugéne Sue (O Judeu Errante) e uma dose reforçada do romance Biarritz, do romancista alemão anti-semita Hermann Gödsche, que usou para o efeito o pseudónimo de Sir John Retcliffe. Interessante que este romance é todo construído a partir das ideias de Joly, com a novidade da introdução dos judeus na trama. Foi assim que Golowinski construiu aquilo que conhecemos hoje como os Protocolos dos Sábios de Sião.
A obra de arte da falcatrua seguiu para Moscovo.
Em 1905, Sergius Nilus, um concorrente de Rasputine que se dedicava ao espiritismo e à «profecia» publica em Moscovo uma obra anti-semita intitulada «O Grande No Pequeno», onde transcreve parte do texto forjado por Golowinski, relacionando-o com o Congresso Sionista que, apesar de ter sido público, ele diz que foi secreto.
Entretanto vem a I Guerra Mundial e a revolução bolchevique e os conspiranóicos tudo atribuem a uma conspiração judaica. Foi da rejeição ao comunismo que surgiu o interesse do magnata Ford na publicação dos Protocolos (1920), pensando que eram verdadeiros, mas que posteriormente (1926) repudiou com toda a veemência.
Umberto Eco, a propósito dos Protocolos, traduzindo com a sua mestria o ridículo das crenças conspiranóicas mesmo quando confrontadas com as evidências da fraude: «Os Protocolos podem ser falsos, mas dizem exactamente o que os judeus pensam, pelo que devem ser considerados autênticos». Ou dito de outro modo, em linguagem que não esqueça: uma mentira que dê jeito tem de ser verdade. A verdade dos preconceituosos.
Sabemos bem que este assunto deveria ter sido escrito por um psiquiatra, mas quando não há cão caça-se de gato.
Vendas Novas, 19 de Julho de 2006
Abdul Cadre
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| A MAIOR FRAUDE EDITORIAL DE SEMPRE |
| 12.15.05 (5:29 pm) [edit] |
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Vendas Novas, 16 de Dezembro de 2005
Diga-se alto e bom som que a verdade vem sempre à tona de água, use-se megafone, se preciso for, mas não se olvide jamais que há pouca gente a querer molhar os pés. A verdade nada rende e a mentira, hoje mais do que nunca, é um bom negócio. Mentira, calúnia e escândalo são os condimentos indispensáveis ao grande espectáculo em que se tornaram as sociedades modernas e a matéria prima por excelência dos meios de comunicação de massa. No jornalismo — e não é exclusivo dos tablóides — escândalo é o que mais rende e pouco importa se é verdade ou se é mentira, o que é preciso é que seja bem excitante. No negócio da letra de forma, os livros não escapam ao fenómeno. O falsário e plagiador Dan Brown provou-o à saciedade, enchendo o bolso à conta dos crédulos desejosos de masturbação mental. Agora oiço na rádio umas ameaças dum Miguel qualquer coisa — não fixei o nome — que vai publicar não sei o quê que vai pôr de pantanas a Igreja Católica. Fiquei sem saber se é romance se é ensaio, mas presumo, pelo que lhe ouvi, que é uma excitação para aproveitar a boleia do Da Vinci. Parece que a coisa se vai chamar O Último Papa e eu quero ver se me safo de perder tempo com parvoíces.
Estas fraudes literárias não são novas. Em tempos era sobre os judeus, sobre a maçonaria, sobre os comunistas a comer criancinhas; agora chegou a vez da Igreja Católica. Vai ter êxito. Mesmo em Portugal. Aqui sobretudo, porque é uma grande oportunidade para os sectores mais pagãos da nossa sociedade — os beatos e os anticlericais — terçarem armas ferrugentas.
Apesar dos milhões de exemplares vendidos, o Código de Da Vinci não conseguiu destronar a maior fraude que eu conheço: Os Protocolos dos Sábios de Sião. Penso que neste campo nenhuma a supera. Trata-se de uma diatribe inqualificável contra os judeus, produzida, a partir de 1898, a mando e sob a direcção da polícia secreta de Nicolau II, a tenebrosa Okrahna, tendo em vista aliviar as pressões revolucionárias e arranjar um bode expiatório para os males da Rússia. Partes constituintes dos «protocolos» foram transcritas em pré-publicação, em 1905, na obra O Grande no Pequeno, de Sergius Nilus, à época um concorrente do célebre Rasputine. Cem anos depois, apesar de comprovadamente falsa, a obra continua a publicar-se e está disponível na NET numa dezena de línguas.
Sabe-se quem foi o Dan Brown desta fraude: o advogado inescrupuloso e nobre arruinado Mathieu Golovinsky. O paralelo entre estes dois não reside apenas na fraude, ambos plagiam despudoradamente outros autores. O americano plagia Gerard de Sède, Margaret Starbird e o trio de Holy Blood, Holy Grail, os mitómanos Michael Baigent, Richard Leigh, Henry Lincoln. O russo plagia uma obra panfletária de Maurice Joly contra Napoleão III, intitulada «Diálogos no Inferno entre Maquiavel e Montesquieu». Frases inteiras são ipsis verbis, a ideia está lá toda, só mudam os personagens. Note-se que, já de si, Maurice Joly teve de pedir inspiração a Eugène Sue…
Sei bem que é impossível convencer um cultor do Pai Natal de que este não existe. Eu não posso dizer aos crentes dos Discos Voadores que não existe nem nunca existiu qualquer prova ou indício da existência de tais zingarelhos, mas cada um tem a religião que mais jeito lhe dá. Escusam é de lhe chamar ciência. Assim, que continuem com os seus ficheiros secretos e, se isso lhes der felicidade, que vão até à Serra do Caramulo esperar pelos extraterrestres que os virão buscar num qualquer charuto acabaçado para os levar para o planeta prometido. Mas, por favor, não venham com as estafadas fotos de válvulas de banheira, nem com autópsias de bonecos de neopreno, nem tragam o entrapado (dito estigmatizado) Giorgio Bongiovani. Sobretudo, não se suicidem, como fizeram os outros lá na América. Eu não falo para crentes nem para contra-crentes — e ser contra-crente é a forma menos nobre de ser crente —, falo para pessoas de espírito crítico jovialmente curiosas.
Os contra-crentes mais obnóxios de que eu tenho conhecimento são os negacionistas dos campos de extermínio nazistas, que em estupidez só podem ser comparados aos patuscos que em França aprovaram a lei que os atira para a prisão, só por serem contra-crentes. Mas dos auto-intitulados democratas que andam a infectar a Europa já se espera tudo. Quando os filhos dos contestatários do Maio de 68 que reivindicavam o proibido proibir, alcandorados em legisladores, proíbem o véu islâmico não lhes entra no bestunto que tal proibição é gémea siamesa de qualquer decreto que obrigue a usar véu. Mas enfim, pode haver remédio para a ignorância, para a estupidez não há…
Importa não nos desviarmos. Falemos no prometido. Ultrapassa a minha capacidade de compreensão haver pessoas e grupos que, contra todas as provas, todas as evidências e todos os argumentos, persistem em dizer que acreditam — e eu duvido que acreditem, porque não é possível acreditarem sem merecerem um epíteto que eu me recuso a usar — na farsa dos Protocolos, um documento abjecto organizado sob supervisão da OKHRANA, como dissemos atrás.
Que fique bem claro e que me desculpem as repetições: os protocolos foram escritos por Mathieu Golovinsky, que para o efeito plagiou quase ipsis verbis o livro panfletário de Maurice Joly, como já referimos, sendo este, por sua vez, obtido por plágio dos romances O Judeu Errante e Os Mistérios do Povo, da autoria de Eugène Sue. Onde Maurice Joly ataca Napoleão III Mathieu Golovinsky ataca os judeus, mas a ideia do conluio das 12 tribos judaicas para o domínio do mundo foi buscá-la (copiando algumas páginas) ao romance Biarritz, de Hermann Gödsche, escrito sob o pseudónimo de Sir John Retcliffe.
Faz muita falta, no mercado português, um livro interessantíssimo: Why People Believe Weird Things (Porque Acreditam as Pessoas em Coisas Esquisitas), de Michael Shemer, o qual faz alguma luz sobre as razões que empurram um número assaz significativo de indivíduos para crenças que ultrapassam toda a normalidade das confissões religiosas mais comuns, fazendo-as cair no pântano dos mais incríveis disparates. Estuda-se isto em Psicologia como wishful thinking (desejo de acreditar) ou auto-engano,
A maioria destes feridos pela credulidade infantil são geralmente pouco dados à frequência das igrejas tradicionais, e se uma parte bebe nas águas inquinadas dessa lepra espiritual a que se vem dando o nome de movimento New Age, outra parte chafurda nos esgotos mentais do neo-nazismo. Paradigma actual do primeiro caso é o lixo editorialmente celebrado do Código da Vinci; exemplo acabado (e ainda em uso) do segundo caso é essa aberração chamada de Protocolos dos Sábios de Sião, que constitui Bíblia para o Ku Klux Klan e no Mein Kampf justifica o ódio e o projecto de extermínio do mal, identificado com o judeu. Para os neo-nazistas, o judeu ou é um porco capitalista ou é um perigoso comunista. Eles adoram invocar, como atestado de autenticidade dos Protocolos, que sabem que são falsos, a sua publicação em fascículos, em 1920, no jornal «Dearborn Independent», de Henry Ford, distribuídos pouco depois à escala nacional numa tiragem superior a meio milhão de exemplares, mas fingem desconhecer que o magnata dos automóveis se retractou, em 1926, no mesmo jornal, dizendo, entre outras coisas, o seguinte: «Desgosta-me profundamente que este jornal tenha divulgado “Os Protocolos dos Sábios de Sião”, que, pelo que pude saber, é uma grosseira falsificação,,, (…) É meu dever corrigir os danos causados aos judeus enquanto homens e irmãos, pelo que lhes peço perdão…»
A utilização da mentira involuntária de figuras de destaque como verdade, «esquecendo» quaisquer posteriores desmentidos, é uma prática comum a todos os falsários e a todos os caluniadores. Dan Brown e os seus quadrilheiros também gostam de invocar as lendas de Saunière e de Plantard, fomentadas (entre outros) por Gérard de Sède, esquecendo, no caso deste autor, a obra saída pouco antes da sua morte, onde ele conta como foi enganado por Pierre Plantard. O livro não está publicado em Portugal e chama-se «Rennes-le-Chateau – Le Dossier, Les Impostures, Les Phantasmes, Les Hypotheses».
Os neo-nazistas também invocam frequentemente um artigo tristemente célebre de Winston Churchil, publicado em 8 de Fevereiro de 1920, no «Ilustrated Sunday», intitulado «Sionismo versus Bolchevismo», mas esquecem o trabalho de pesquisa e desmascaramento produzido por Philip Graves, correspondente em Constantinopla do jornal londrino «The Times», de que resultou um extenso artigo publicado em 17 de Agosto de 1921, no mesmo jornal, onde todos os pormenores da falsificação são apresentados ao público.
Também podíamos invocar as condenações em tribunal, nomeadamente na Suiça e nos Estados Unidos, mas seria desnecessário aos intelectualmente curiosos e honestos; para os crédulos, de nada serviria, porque nada os demove. Podemos dizê-lo aos próprios falsários militantes, mas aos crédulos não. Os primeiros, ou nos agridem ou tomam um ar conspícuo e dizem: «é pá, tá bem, mas não digas a ninguém». Os segundos — é a natureza deles — dirão: «isso dizes tu, mas só prova que os gajos até mandam nos tribunais».
De acordo com o «L’Express», de 24 de Novembro de 1999, o historiador russo Mikhail Lepekhine provou, graças aos ficheiros da antiga União Soviética, aquilo que já se sabia e vinha sendo denunciado desde 1921, que Mathieu Golowinski foi o falsificador dos Protocolos. Daí para cá, mesmo em meios académicos, tornou-se moda dizer coisas deste género: «Bom, o que é certo é que, independentemente da autenticidade do livro, a conjura existe tal como lá vem» …
Não há mesmo pachorra!
ABDUL CADRE
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| 05.08.05 (9:00 am) [edit] |
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Vendas Novas, 8 de Maio de 2005
eu não sei como ainda há pachorra para deixar que nos moam o bichinho do ouvido com conversa da treta sobre educação, sucesso escolar e coisas assim.
Sobejamente, repetidamente já dissemos neste mesmo espaço que tal discussão perde todo o sentido quando nem sequer se assentam ideias sobre o que é educação, ensino, aprendizagem, instrução, etc. Mas bitates sobre a coisa que ninguém define minimamente é um ror, porque o que nos caracteriza como povo deseducado é botarmos opinião e discurso sobre tudo e sobre todos, sem perder um segundo sequer em informarmo-nos sobre o que debitamos. É que temos grande orgulho em afirmar o que não sabemos e um ódio fininho e surdo por tudo o que envolva esforço de aprendizagem, espírito crítico e bom senso. É o oito e o oitenta, é o malandros, é o que tu queres sei eu, é o está-se mesmo a ver, que desta pecha até os cegos sofrem, desde que formatados em Portugal.
Do pouco que se sabe crítica e criteriosamente do que a alunos e escolas diga respeito directo, destaca-se a convicção de que professores é coisa que escasseia e gente que dá aulas haverá para dar e vender, embora ninguém queira comprar. O drama das colocações — Ah, coisa freudiana! — terá a ver com a falta de apetite para comprar. Mas o que me arrepia mais do que tudo é haver professores com vocação que se deixam enredar na perversidade do sistema vigente, chegando alguns a reivindicar-se do estatuto de pedagogo. Que horror!
Pedagogo era, na Grécia clássica, o escravo que não deixava as crianças em paz e sossego, nas suas brincadeira, cumprindo os ditames dos papás, que queriam filhos sabichões, enquanto estes sabiam perfeitamente que o seu futuro dependia da espada, do músculo e da artimanha. Ou seja, a escola, que por sua natureza deveria formar o escol, a elite, parece ter primado sempre pelo desfasamento com o real. Ontem e hoje. Por isso eu tanto repito aqui, por julgar compreender, aquela atitude do professor Orlando Vitorino, quando lhe pediram ideias para o ensino, qualquer coisa do género: «fechem todas as escolas, a começar pelas universidades».
Particularmente, sobre o que me interrogo, é quanto ao direito que o estado tem ou não tem de educar. É evidente que a sociedade educa os indivíduos, mas isso resulta da sua natureza e não de qualquer direito ou intenção, mas o estado educar, isto é: formatar o indivíduo, é algo de perverso. Ou não é? Para mais, fazê-lo a crianças que não fizeram mal a ninguém... E fazê-lo ao mesmo tempo que os papagaios de serviço defendem menos estado e demagogias afins. Eles sabem que não é menos estado que querem mas mais lei da selva, mas isso é já outro assunto.
Enquanto a instituição família não estiver totalmente liquidada — e o sistema está apostado nisso — educar é tarefa dos pais. Instruir será outra coisa. Mas os pais, a quem o sistema entre promessas e ameaças usurpou o tempo, estão pouco interessados quer na instrução quer na educação. Sem dúvida que, quanto mais não seja por hábito, por atavismo, por afirmação social desejam o melhor para os seus rebentos e que estes sejam na vida o que eles não puderam ser e, nesse sentido, o que é bom é que saia um diploma, nem que seja na Farinha Amparo, mas o que os pais esperam verdadeiramente da escola — desculpe-se a generalização — é que seja armazém da prole, que a jornada é pesada, o tempo é curto e os jogos de computador não chegam para tudo nem para todos. Um armazém de guardar filhos e enteados, eis a escola.
Por vezes caem-nos na sopa os políticos que tomam por paixão o ensino, a formação e essas coisa assim. É tão mau ter uma paixão: torna-nos cegos, surdos e mudos! É por isso que o apaixonado (ou a apaixonada) olha para o fruto da sua paixão, que tem os olhos vesgos, e diz: que lindo olhar, nunca vi olho mais lindo.
Mas se querem educação, vejam o que se está a repetir nos Estados Unidos da América: professores a serem hostilizados e perseguidos por defenderem a teoria da evolução. É, no Kansas, o remake do célebre caso do professor John Scopes que, em 1925, foi acusado de violar as leis do Tennesse, por defender a evolução darwiniana, quando as seitas no poder — as mesmas que apoiam agora o Bush — defendiam o criacionismo. O criacionismo é óptimo, porque permite em nome de Deus declarar que uns já nascem maus e irrecuperáveis e outros bons e com direito ao céu neste e no outro mundo. É um suporte indispensável para a defesa da pena de morte, da negação de todas as políticas de integração social, porque quem é pobre é culpado de o ser e quem é despedido é porque não presta.
O pior dos mundos, dirigido pelos piores canalhas, e com o aplauso do povinho, do povão e, sobretudo, dos papagaios de serviço sempre louros, sempre prontos, com o seu biquinho doirado.
Abdul Cadre
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| O SÍNDROME DO PAPAGAIO E A LIBERDADE DE EXPRESSÃO |
| 04.19.05 (9:19 am) [edit] |
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A DITADURA DEMOCRÁTICA, ou antes: a democracia ditatorial vigente na generalidade do território do IV Império e suas regiões associadas é um totalitarismo político e ideológico, uma espécie de fascismo de veludo que, sendo macio, engana e sendo chique cativa.
Embora já tenhamos falado disto, talvez se imponha lembrarmos o que queremos dizer com IV Império. Está na Mensagem, de Pessoa: Grécia, Roma, Cristandade, Europa.
A Europa, relembre-se também — e nisto o Pessoa não tem culpa nenhuma — vai de S. Francisco a Vladivostoque. Aqui, a imaginação está impedida de ascender ao poder e este tem por missão primeira, visto ser de veludo macio e atractivo, convencer-nos que só há um caminho, que embora não conduza a lado nenhum, evita que tudo seja ainda pior. É uma outra versão do antigo semear do medo, do a partir dali só há dragões.
Nunca uma sociedade foi tão conformada com uma ideologia dominante, tão rendida, tão apática quanto esta nossa, que se diz pluralista, mas se submete ao pensamento único dos onzenários e dos obscenos; nunca como hoje um totalitarismo político e ideológico foi tão cilindrante da liberdade, do humanismo e da inteligência. Um totalitarismo que jura não ter ideologia e que as ideologias morreram, no mais cínico dos exercícios de esconjuro, para que nenhuma outra se lhe possa opor. É a versão light dos «asilos psiquiátricos».
Como se vivêssemos no melhor dos mundos, os meios de ecoar esta ideologia que jura falso, malgrado a indiferença geral, tecem permanentemente as mais solenes loas à tolerância, à participação e à liberdade, como se acreditassem. Atiram ao ar e ao papel, falsos como Judas, elogios à benignidade das diferenças. Pura retórica. Raminho de flores de plástico para dar cor ao cinzento do pensamento único.
É o subconsciente que dita a generalizada indiferença, a surdez pelo cansaço da inflação das arengas; o consciente — esse — anda anestesiado, esperando quase sem esperança, como quem espera D. Sebastião, nevoeiro após nevoeiro, sem que ele venha e com pouca vontade de acreditar que venha, mas desejando todavia uma qualquer cirurgia que não doa nem dê choque pós-operatório.
Dirão os eternos defensores de todos os situacionismos — e dizem sempre bem alto, para que quem lhes paga os oiça — que há liberdade de expressão, que não há presos políticos nem por delito de opinião e que ninguém é obrigado a ser ou a fazer o que não queira...
E tudo isto — fôssemos nós imigrantes acabadinhos de chegar de Marte — pareceria verdade. Parece à maioria e são bem poucos os que se dão conta de que a coisa é uma contrafacção da verdade a servir de tampa a uma enorme mentira. Acontece, porém, que os que se apercebem da marosca, por mais que avisem, por mais que gritem não se conseguem fazer ouvir no meio do ruído geral, da chinfrineira entontecedora produzida pela tal de liberdade de expressão, que só existe por ser virtual, inócua e inútil. O sistema permite-a pelas características apontadas e porque não só não se sente ameaçado como percebeu há muito que uma panela de pressão precisa sempre de uma válvula de escape, caso contrário, à menor distracção, rebenta. Ora, todos sabemos que as válvulas, para descomprimir, fazem «pfff», mas ninguém se assusta, antes entra em salivação à espera da sopinha.
Os comprometidos esquecem-se e os áulicos querem que não percebamos que a liberdade de expressão, mesmo que não se caracterizasse como se disse atrás, em caso algum seria sinónimo de cidadania; esta é uma práxis e aquela, quanto muito, um dom. Como dom, em teoria, poderia ser uma varinha de condão para potenciar aquele exercício. Poderia! Mas também o valete de paus poderia saltar do baralho e dizer «olá, cá estou eu», mas não há notícia de que o tenha feito, nem nas mãos do David Copperfield (ou do Luís de Matos, para jogarmos em casa). O que o tal dom potencia é precisamente o contrário daquilo que se diz e seria lídimo esperar.
Eis assim — desculpem a repetição — que a liberdade de expressão se tornou neste ruído à toa que tantos incensam e que a quase todos entorpece o verbo e endurece o ouvido. É, pois, um ruído que ensurdece e desmobiliza. É uma imagem de marca destes tempos envenenados pelo síndrome do papagaio. Mas se querem chamar a esta patologia o que a propaganda invoca, se a querem ter como a saúde da democracia — entre aspas — chamem. Não tem importância, cabe no ruído geral, naturalmente tão inútil e inócuo quanto o epíteto que eu lhe dou. O que não podem, lendo-me, é fazerem de conta que nunca ninguém lhes disse; que não sabem de um certo acrescentador de ruído — e há muitos outros — que, certo ou equivocadamente (o tempo o dirá) anda a pregar (se calhar aos peixes) que o síndrome do papagaio, tal como vigora na sociedade acrítica, decadente, corrompida e obscena — esta nossa —, tem nela a alcunha de liberdade de expressão, mas nada move, nada transforma, nada faz progredir em termos de pensar, agir e humanizar.
Talvez isto seja um reflexo da cibernética...
Na cibernética tudo é possível, mas nada acontece; nada é real, tudo é virtual. Nada permanece...
Abdul Cadre
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| Estes Acontecimismos politiquérrimos |
| 04.18.05 (3:57 pm) [edit] |
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Vendas Novas, 18 de Abril de 2005
EU SEI, eu sei que as palavras do título são um tanto desbocadas, mas não encontrei outras mais apropriadas para aplicar ao pimbismo político nacional e ao provincianismo engravatado dos seus mais lídimos representantes.
Quem tomou alguma atenção aos acontecimentos político-partidários havidos recentemente, certamente que se terá apercebido de que a UDP teve o seu congresso de extinção, que mais não foi do que formalizar a sua dissolução de facto no Bloco de Esquerda. O que nem todos os atentos consciencializaram é que foi por uma linha negra que o último congresso da direita liberal à inglesa curta não deu na dissolução do PPD. Tão reduzida foi a margem do vencedor sobre o representante do santanismo que é melhor que ele se cuide e leve a sério a ameaça do inconformado despedido pelos votantes, regressado ao seu abrigo autárquico, mas andando por aí. É: ele diz que vai andar por aí, o que quer dizer que não percebeu nadinha do que lhe aconteceu e teima em sonhar com o impraticável e desnecessário PSL, por mais que o choradinho já não pegue e a retórica vazia da emoção utilitária e demagógica já não consiga as orelhas arrebitadas e os corações aos saltos de outros tempos e de outros calores.
No entanto, o chão minado dos delegados ao congresso deu o que deu. O povo laranja, ao que parece, continua a acreditar que é todo o povo e não a federação restrita de medos e anseios duma parte do povo a que as ilusões e as desilusões fazem parecer multidão ou pouca gente conforme soprem os ventos.
Mas o que é certo é que o povo laranja, tal como Santana, não entendeu a derrota esmagadora que o seu partido sofreu e a falta de ideologia que lhe é característica torna-o prisioneiro do acaso, do vento e dos líderes ocasionais e provisórios que prometem o que não podem dar e que juram o que se espera que jurem.
Esta já esperada vitória de Marques Mendes dá-lhe a condição de liderança vigiada; verdadeiramente não é uma vitória, mas um presente envenenado. Melhor: é uma dupla derrota, já que tem, por um lado, os contabilistas que esperam o pior — Manuel Ferreira Leite e António Borges — e, pelo outro, os que julgam que o tempo trará repetidas oportunidades caídas do céu — Santana e Menezes —, e o que é preciso é esperar que o homem escorregue. E já anda a escorregar, cedendo ao inamovível suserano da Madeira. No banco, como espectador, azedo como sempre, Pacheco Pereira bloga.
Escorregadela foi também a de Sócrates. Não havia necessidade. Que pressa é essa duma lei para a qual os portugueses, lá bem no fundo, se estão marimbando?
Limitar os mandatos é coisa que, à primeira vista, principalmente a quem sofra de treçolhos, parece muito saudável. Parece e sê-lo-ia de facto se acaso se tratasse de cargos providos por nomeação, mas acontece que os mesmo resultam de mandato popular. Ora, restringir da forma que o governo pretende e os socialistas já aplaudem é, inequivocamente, diminuir a vontade do povo. É a confirmação daquilo que eu tantas vezes tenho dito aqui: todos somos democratas desde que nos façam a vontade; todos gostamos muito do povo, desde que seja ordeiro, pague as despesas da democracia, bata palmas e vote como a gente quer.
O povo, evidentemente que precisa que lhe ensinem a votar como deve de ser e é para isso que servem os iluminados que o povo escolhe para lhe ensinarem a votar. E a pescadinha de rabo na boca também é mais ou menos assim.
É claro que a infeliz lei parece mesmo talhada para afastar o donatário da Madeira e em política, já se sabe, o que parece é. Mas o referido donatário recebeu aquele território para administrar, não do rei, mas do tal povo que é quem mais ordena quando dá jeito, isto é, quando não faz ondas nem contraria quem manda e quem manda é porque tem procuração para o mando e etc. e tal e lá vem a pescadinha com o já referido na boca.
Mas escorregadela com escorregadela se paga. Escorrega Sócrates e escorrega Mendes; o primeiro porque necessita dos votos do segundo para fazer aprovar a lei e o segundo porque dá o dito por não dito por reverência ao campeão dos impropérios e das vitórias laranja. Laranja à mexicana, está bem de ver. Façam sumo, façam sumo.
Abdul Cadre
(Publicado no Jornal do Barreiro)
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| DESIDERATA |
| 03.27.05 (6:18 pm) [edit] |
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& nbsp; &n bsp; Ignorar o nome do autor do poema Desiderata é um erro que se repete desde pelo menos os anos 60 do século passado, de pouco valendo as constantes reposições da verdade que muitos vão tentando. Com o advento da NET, o fenómeno tornou-se praticamente incontrolável.
Sem dúvida que seria mais compensador para o imaginario popular e para o humano desejo de maravilhoso que a todos toca com mais ou menos intensidade que op poema tivesse sido encontrado da forma que os «spams» e «hoaxes», que chovem intensamente na nossa caixa de correio electrónico, dizem.
Ora, aparte a linguagem ser inverosímil para um texto pretensamente do século XVII, o poema, duma beleza indiscutível, é suficientemente conhecido em todo o mundo para que haja desculpa para quem desconheça o autor, um advogado de Terre Haute, Indiana (USA), chamado Max Ehrmann, que viveu entre 1872 e 1945. Na edição de 1948 de «The Poems of Max Ehrmann»., Desiderata (escrito em 1927) vem na página 165.
& nbsp; &n bsp; Como nasceu então a tontaria?
& nbsp; &n bsp; Foi assim: em finais de 1959 ou princípios de 1960, o reitor da Igreja de São Paulo, em Baltimore, Maryland, o reverendo Frederick Kates organizou uma colecção de poemas e prosas para ilustrar e enriquecer as suas prédicas no seio da congregação que então dirigia. Escreveu todo esse material com a sua própria letra em papel timbrado da igreja, que tinha o seguinte cabeçalho: «St. Pauls’s Church — Baltimore — Maryland — fundada em 1692» Mais tarde, alguém publicou aquela colectânea sem se preocupar em saber quem era o verdadeiro autor de cada um dos textos.
& nbsp; Com a NET todo o cuidado é pouco. As coisas propagam-se com tal velocidade que se tornam imparáveis. Também uma celebérrima carta de despedida do mundo, atribuída ao escritor Garcia Marques anda há mais de dois anos a navegar, sem que o visado, que em devido tempo a desmentiu, consiga parar a corrente.
Abdul Cadre
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| A Democracia e o Pai Natal |
| 03.20.05 (5:22 pm) [edit] |
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Há dias, num desses Fora de discussão cortês — que os há na NET — , dizia em lamento quase compungido um dos participantes, no seguimento de comentários às proezas anti-sociais do presidente da Câmara dos Deputados (Brasil) Severino Cavalcanti: Porque somos culpados de votar neles? Quais as alternativas para não nos sentirmos culpados? Somos culpados?
Penso que é bom ser-se ingénuo no seio de ingénuos, mas ser-se inocente não me parece ser estimulante, embora possa tornar-se em um modo de vida.
Assim, avancei uma tese que me parece muito sólida, já que entendo que parte de uma constatação incontornável:
PRIMO. Todo o mau carácter que seja eleito é sempre e em todas as circunstâncias completamente inocente. Ele não obrigou ninguém a votar nele.
SECUNDO: Todo aquele que vota é sempre e em todas e quaisquer condições culpado em absoluto; mesmo que no mau sítio onde vote seja obrigatório fazê-lo, ninguém o obriga a pôr a cruz que deve ser dada aos defuntos no quadradinho; pode escrever umas asneiras, que está provado serem um bom lenitivo psicológico.
Comentando o que por aí se vê, eu diria que, a haver justiça neste mundo, sempre que um político, por exemplo, metesse a mão na massa todos os votantes deviam ser presos. O problema é que o voto é secreto. Tenho esperança que com o voto electrónico se possam identificar os votantes. Se não for possível oficialmente, os hackers tratarão do assunto.
Sublinhando, nunca é demais dizer-se que povinho adora ladrão e demagogo. Um político que queira assegurar a sua eleição, baste que espalhe cartazes com a sua foto e os dizeres. ESTE ROUBA, MAS FAZ.
Na democracia de fancaria — que é o sistema que os possidentes inventaram para os crentes — o que me espanta é como é que há tanta gente honesta em cargos públicos e em cargos políticos. Devia ser proibido. Melhor: esses, dado que são parvos e não correspondem ao desejo dos votantes de ser roubados e enganados para se poderem lamentar e dizer «tadinho de mim», esses (repito) deviam ser despedidos, ou mesmo expulsos do país onde não são romanos..
& nbsp; &n bsp;
Fora de contexto: o próximo passo na destruição da esperança de algum dia se poder vir a ter um regime democrático chama-se voto electrónico. Tudo isto tem uma lógica: afastar o cidadão da cidade e aprisioná-lo em casa. É preciso que os cidadãos não falem uns com os outros e se limitem a ouvir a voz do Big Brother que lhe chega pela TV
Tudo isto estava previsto há muitos anos. Só não percebe quem não esteve para ler com atenção o Aldous Huxley. Mas esses, afinal, são os felizes — felizes pela ingenuidade—, que têm assim liberdade para acreditar no Pai Natal, esse inexistente senhor, cada vez mais parecido com a garrafa de Cocacola que o desenhou.
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| A PERVERSÃO DA EXCITAÇÃO |
| 03.08.05 (9:17 pm) [edit] |
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NUM MUNDO sem espírito, como é o nosso no actual ciclo pós-moderno, decadente e mercantilista, toda a produção literária com algum impacto que se reivindique de busca e de critérios espiritualistas só pode ser ou uma paródia ou a própria negação daquilo que afirme, mesmo que jure. Diz o povo que quem mais jura mais mente, mas os mentores deste mundo que apodrece nunca mentem, eles são a própria mentira e a mentira é sempre verdadeira. Aliás, se jurassem, nada teriam de sagrado sobre que pôr as garras que lhes substituíram as mãos; para o fazerem, teriam de usar as tetas da Bo Derek, o livro de cheques, o Jornal O Crime ou coisa similar.
Neste tempo onde tudo se vende, tudo se vilipendia, tudo se prostitui, a bitola moral de todo o êxito está nas cotações da bolsa, nos top mais, no share; o que vende é bom e o que não vende é mau ou não existe, mesmo que exista. E esta regra é tão válida para arranjar noiva como para bater palmas a um disco ou a um livro.
Há um bom par de anos atrás, apareceu por aí um esterco em livro de características zandingueiro-cibernética s, escrito por dois militantes do sionismo internacional, que tinha por título Código da Bíblia. Era uma coisa intencionalmente corruptora e, em razão disso, nem sequer se lhe podia chamar tonta, cheirava mal e pronto. Usava uma estratégia de calar naturais desconhecimentos, atirando à cara do leitor que estava tudo sob controlo do computador, essa sacrossanta ferramenta da teologia de mercado que, no campo das credulidades de base, veio substituir São Miguel Arcanjo, São Jorge, o dragão e sei lá que mais...
Foi uma delicia ver como inocentes incapazes de distinguir, no alfabeto hebraico, um aleph de um schin se deliciaram com páginas e páginas de caracteres que desconheciam, seguindo tolamente as coordenadas fantasmagóricas que os autores juravam (não sei se sobre a Bíblia, ou se tiveram a colaboração da Bo Derek) cruzarem-se sobre todos os acontecimentos, mesmo os mais banais. Da queda de geada à morte daquela leviana que os jornais em campanha desinformativa chamaram princesa do povo, estava tudo previsto. Se levássemos a crença espúria às últimas consequências, afirmar-se-ia que no tal código se previa — então não havia de estar lá, com o estrondo que fez? — a queda do consulado mais triste da nossa História e o regresso do derrotado à Câmara de Lisboa. Estava previsto com todos os números e com todos os votantes. Uma delícia.
Para as pessoas mais atentas, aquilo era uma verdadeira ofensa à inteligência; os crédulos — esses — lamentavam-se apenas por não saberem de programação informática e de hebreu para poderem descodificar na Bíblia as datas certas em que iam de férias, não se arrepiando sequer que aquela estupidez impressa pusesse em causa dois mil e quinhentos anos de Filosofia.
O que é curioso nestas coisas é vermos gentinha que habitualmente não lê atirar-se a lixo deste como se ler tivesse, naquele fogacho inusitado e inconsequente, uma importância de descoberta da pólvora. Há até dos que, bastante entrados nas letras, puxam de galões e canudos e desculpam o lixo a que chamam obra, dizendo que incentiva a leitura, como se, atirando os nossos filhos ao caneiro de Alcântara, pudéssemos dizer que os estávamos a incentivar para a natação.
Agora caiu aí uma das maiores intrujices alguma vez publicada: O Código Da Vinci. Os permissivos saltam a terreiro e gritam: então, é um romance, é ficção, enquanto os crédulos de sempre dão testemunho da sua inocência, murmurando entre o orgulhoso e o não sei quê: mas tem ali muito de verdade. Entretanto, o intrujão, que escreveu a abrir que tudo o que diz é verdade, isto é, a ficção passou a ser a realidade, pergunta para o contabilista: quantos milhões? quantos milhões?
Pois é, até podíamos desculpar o intrujão à pala de se tratar de imaginação romanesca, mas se o homem jura — e já vimos que quem mais jura mais mente — que tudo se baseia em factos absolutamente verídicos, não podemos. Aquilo a que ele chama factos são comprovadíssimas mentiras e falsificações. Já lá vai o tempo em que num romance se dizia que quaisquer parecenças com a vida real eram pura coincidência; hoje, quando o que melhor vende é a mentira, hoje, em que podemos confiar a 100% na mentira, porque ela é sempre o que é, vale tudo, até tirar olhos, a mentira é um grande capital.
Há também quem venha com pezinhos de lã apontar que a coisa é uma espécie de Harry Potter para adultos, talvez levando em conta (ou inspirando-se) que a saga do puto feiticeiro é escrita por uma professora de inglês e que professor de inglês é também o famigerado Dan Brown que, num serviço ao sionismo internacional, resolveu roubar o sagrado e a divindade a Jesus para entregar ambas as coisas a Maria Madalena. Para o intrujão, a igreja católica — e por que não a protestante e a ortodoxa? — sabia que Jesus mais a dita cuja se tinham casado sem convidar ninguém para a boda e que tinham tido muitos meninos, os quais deram origem à dinastia francesa dos Merovíngios. Devia de haver limites para a estupidez, mas parece que não há. Pois bem, a Igreja sabia e perseguiu todos os outros que também sabiam, para que a gente não soubesse. Valeu-lhe de pouco, porque quis o destino que nascesse o grande profeta do dólar para pôr tudo em pratos limpos.
Abdul Cadre
FRC
(Publicado no Jornal do Barreiro)
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| O CÓDIGO DA TRETA |
| 03.02.05 (6:37 pm) [edit] |
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DAN BROWN, professor de inglês, bacharel em História da Arte é um oportunista bem sucedido. Vinte milhões de consumidores do seu mirabolante código, sedentos de maravilhoso e ávidos de serem enganados, garantiram-lhe uma velhice aconchegada, salvo qualquer descarrilamento que a vida lhe venha a trazer. Ele não tem qualquer formação na área que afirma ter investigado, mas que comprovadamente não investigou, tudo carreando para o seu embuste das obras que leu — algumas apenas à vol de oiseau — e que aqueles que não andam distraídos nas leituras bem conhecem. Não há no seu livro a mais pequena originalidade nem quaisquer vestígios de novidade se vislumbram ali. É por isto que não podemos dizer o que Marcelo Caetano disse um dia a um seu examinando: «há na sua tese coisas muito boas e coisas muito originais; pena que as boas não sejam originais e as originais não sejam boas». É que todas as propostas que colocou no seu abortivo trabalho já eram más no original, algumas muito antigas, remontando inclusive a lendas medievais, invariavelmente, nos meios onde o espírito crítico não é simples figura de retórica e o critério de busca das verdades históricas e documentais não esmorece, apontadas como falsas . Mas Dan Brown não é apenas um oportunista bem sucedido entre outros que o sejam menos, é também um mentiroso contumaz e militante. E tem todas as razões para o ser porque é a sua forma de ganhar a vidinha. Numa entrevista a uma jornalista americana, o marau dizia que estava farto daquilo que vinha nos livros — tudo falso, já se vê, segundo ele — e isso levou-o a cair sobre nós como o grande profeta desta era do vazio e do dólar. Assim, a verdade dele — que é descarada mentira e evidente má-fé — foi vertida na sua obra pelo método, não diria da tesoura e cola, visto que fez imensos retoques para pior, mas pelo da falta de escrúpulos, que não necessita tesoura, basta o desrespeito pelo que escreveram outros e a nenhuma consideração pelos leitores. Sem dúvida que cita alguns autores e as suas obras, mas em simultâneo faz interpretações enviesadas das mesmas, quando não mesmo inversas. Não cabe aqui, por inadequação e por falta de espaço — só num ensaio de várias páginas — analisar os dislates e as aleivosias do figurão, pelo que basta que se diga que as suas afirmações (que afinal são de outros que escreveram antes, nomeadamente Gérard de Séde) sobre os merovíngios a descenderem de Jesus, sobre o Graal e Maria Madalena não são apenas delirantes, são de tal maneira estúpidas e fora do contexto mais do que sabido das respectivas lendas (e não Teologia ou História) que bem poderiam ter sido produzidas por algum internado no Júlio de Matos. Depois, tirar a Jesus o sagrado e o divino para dar ambas as coisas a Maria Madalena, será para quê? Baseia-se em quê? Nos seus delírios pós new age ou numa sexualidade mal resolvida? Como se acabasse de descobrir a pólvora, diz várias vezes que Maria Madalena não era uma prostituta e que foi a malvadona da igreja, na sua senha de subjugar a mulher, que tudo inventou acintosamente. O homem não se actualizou, pois há muitos anos que a igreja católica, ultrapassando os textos evangélicos, que nisto são confusos, defende que Jesus apenas livrou Madalena de sete demónios e que a prostituta defendida por Jesus é outra mulher que não ela. O homenzinho diz mais: que nos Evangelhos Apócrifos — lá vêm os apócrifos que têm muito que contar — que Maria Madalena é tratada como apóstola dos apóstolos, o que é mentira, totalmente mentira; essa frase, que é da autoria do actual Papa, não se encontra escrita em nenhum evangelho. Diz ainda que um dos apócrifos relata que Jesus beijava na boca e amiúde Madalena, coisa que não está escrita em lado nenhum. É imaginação do homenzinho ou analfabetismo. O documento que refere está todo esburacado pelos malefícios do tempo e tal passagem é apenas suposta: um dos editores da coisa pôs entre parêntesis rectos aquilo que deduziu... Por falar em documentos: é evidente que Dan Brown não consultou os documentos que afirma ter consultado, referentes à associação inventada pelo ex-nazista (e depois degaulista), o mal-afamado Pierre Plantard, um louco megalómano que se afirmava descendente dos merovíngios, e assim de Jesus e Madalena. Estou a lembrar-me de um tonto similar, um brasileiro que foi ao Herman José e se dizia reencarnação de Jesus. O Priorado do Sião foi uma trapaça — nem sequer bem urdida — do Sr. Pierre Plantard e de um grupo restrito de mitómanos. Os documentos que se encontram depositados na Biblioteca Nacional, em Paris, estão classificados como falsificações. Não são seculares, foram forjados entre os anos de 1964 e 1969, pasme-se. É por eles que o trapaceiro do Dan Brown invoca Da Vinci para mestre da inexistente sociedade secreta... Por que razão este livro teve tanto êxito comercial? Bom, isso mereceria um estudo profundo e exaustivo e, à falta dele, perguntaríamos no mesmo jeito: por que é que os drogados se drogam? Posto isto, dirá muita gente: ó homem, não vê que aquilo é apenas um romance, um thriller? Pois é — ou não é — mas, para além da cobertura nada inocente que lhe foi conferida pelos media e dos vinte milhões que subsidiaram o autor — coisa que merece atenção e cuidado — o escriba garante no prefácio que tudo o que ali meteu a martelo é rigorosamente verdadeiro e denuncia tudo o que diz a Igreja Católica, que em tudo mente. Quer dizer, antigamente, nos romances preveniam-se os leitores: todas as semelhanças são pura coincidência; agora, toda a fantasia, toda a mistificação, toda a mentira se afirma como verdade pura. É o fruto deste tempo que apodrece. Termino com um desafio aos meus leitores que tenham tropeçado na fancaria a que nos vimos referindo: leiam os Evangelhos Apócrifos e releiam os Canónicos. Não se iludam com os textos de excitação que louvam uns em detrimento dos outros. E, por favor, não comprem livros, nem discos, nem o que quer que seja só porque as estratégias de marketing lhes induzem crer que é a única forma de serem felizes e de não serem menos do que os outros. Tais estratégias são verdadeiramente o grande segredo do Código da Treta.
Abdul Cadre
FRC
Vendas Novas - PORTUGAL
(Publicado no jornal ROSTOS)
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